Lula reeleito derruba Bolsa e dólar tem maior alta em 23 anos; mercado já espera acomodação
O resultado do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) surpreendeu o mercado. Na segunda-feira (26), o dólar teve a maior alta diária em 23 anos, os juros futuros subiram quase dois pontos e a Bolsa precisou paralisar suas operações na abertura, no que foi o pior pregão desde a pandemia.
Na contramão, o VIX Brasil, indicador conhecido como “termômetro do medo” do mercado brasileiro, chegou a cair 40% ao longo do dia. No fim dos negócios, a queda apurada era de 38,59%, um movimento que pode soar contraintuitivo diante do tombo dos ativos.
Reeleição de Lula derruba posições ligadas a Flávio Bolsonaro
A vitória de Lula para um quarto mandato frustrou expectativas do mercado financeiro e forçou o desmonte de posições construídas em torno da tese de Flávio Bolsonaro. Foi essa virada que pesou sobre os ativos ao longo da segunda-feira.
“A forte reação do mercado nesta segunda-feira reflete o fato de que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva não estava totalmente precificada pela maior parte dos agentes financeiros. Nas semanas que antecederam o segundo turno, o Ibovespa registrou expressiva alta embalado pela expectativa de que Flávio Bolsonaro sairia vencedor”, observa Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad.
Ela afirma que muitos fundos e investidores institucionais apostaram em um cenário que não se confirmou nas urnas. Para a estrategista, isso tornou o ajuste de preços previsível, além de exigir desmontes rápidos das carteiras por urgência operacional.
VIX cai e a volatilidade recua após a eleição
Enquanto o dólar disparava, o VIX mostrou que a volatilidade caiu. O choque inicial ainda deve reverberar nos próximos dias, mas a expectativa é que o mercado se acomode e volte a olhar para fundamentos e para o noticiário, seja corporativo ou político.
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, compara a duração do movimento atual com o que aconteceu depois do primeiro turno. Para ele, o pessimismo deve durar “por enquanto”. “A lua de mel do otimismo do mercado financeiro no pós-primeiro turno durou uns 15 dias aproximadamente”, relembra.
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Ainda segundo Nossig, a queda forçada de posições, que ela chama de “liquidação forçada de posições”, tende a perder força à medida que o “choque inicial” é absorvido. A volatilidade recua quando a eleição termina e fica claro quem será o próximo presidente, mas a incerteza não desaparece e o mercado seguirá atento às pistas sobre a postura do petista no próximo governo.
Mercado aguarda sinais do governo Lula sobre governabilidade
A expectativa em torno de Bolsonaro era movida pela esperança dos investidores em uma política fiscal mais rígida. Com Lula, a aposta é na continuidade de uma economia baseada no impulso dos gastos públicos. Por isso, os analistas ouvidos pela reportagem dizem que o mercado deve esperar o que o governo de fato sinalizar antes de definir novas estratégias.
Nesse intervalo, a Bolsa deve entrar em um período de oscilação tática e consolidação de preços. Olivia Carneiro, economista e mestre pela Universidade de Chicago, ressalta que ainda deve sobrar algum resquício de especulação eleitoral durante a transição de mandatos.
Com um Congresso mais à direita, o mercado vai calcular a governabilidade de Lula 4 e a continuidade, ou não, de medidas de impacto para a economia.
Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, avalia o impacto inflacionário de algumas propostas do próximo ciclo, como o fim da escala 6×1, e o efeito que isso pode ter nas expectativas. Ele também calcula o possível efeito do El Niño sobre o preço dos alimentos.
No cenário externo, Carneiro cita preços de energia, a guerra no Irã e crises de dívida, inflação e juros altos em diversos países, o que deixa o mercado sem impulsos claros para se movimentar.
Ibovespa acumula alta no ano apesar da queda na eleição
Mesmo com o exterior desfavorável, o Ibovespa vem colhendo ganhos em 2026. Apesar da queda de 13,88% na ressaca da eleição, o principal indicador da Bolsa brasileira acumula alta de 10,32% no ano. Desde 2023, a valorização passa de 60%.
Para Olivia Carneiro, o ânimo dos investidores “vai depender da postura do Lula daqui para frente”. Alex Agostini afirma que construir credibilidade fiscal vai exigir do presidente mais do que discurso. Ele diz que “nada será suficiente” sem a indicação de um nome forte e vindo de fora do Partido dos Trabalhadores para o Ministério da Fazenda.
O novo chefe da equipe econômica, na avaliação do economista, deverá ser alguém “técnico e pró-mercado”. “Para que haja trégua, precisa indicar nome forte à Fazenda. Não só ortodoxo, mas um aristocrata, que conhece as demandas do mercado financeiro e do setor privado. E para que a credibilidade seja duradoura, o governo vai ter de formar corpo junto do centrão para aprovar suas medidas”, pontua o economista-chefe da Austin.
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Redação Economia
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