Iate de Melnichenko custa cerca de US$ 30 mil por dia e passa de US$ 10 milhões por ano à Itália

Com tripulação de 20 pessoas, o “Sailing Yacht A” está retido em Trieste desde 2022, e o prefeito Roberto Dipiazza ameaça vender o superiate de US$ 600 milhões.

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Iates atracados no Port Hercule em razão do Monaco Yacht Show, maior evento do tipo na Europa | Foto: Reprodução/CNN Brasil

Uma embarcação cara e de aparência desagradável vem prejudicando a paisagem do porto de Trieste, no norte da Itália, há mais de quatro anos. Segundo o prefeito da cidade, a manutenção dela já custa milhões aos contribuintes italianos.

Trata-se do “Sailing Yacht A“, do oligarca russo Andrey Igorevich Melnichenko, uma das maiores embarcações a vela do mundo, avaliada em cerca de 600 milhões de dólares. Em março de 2022, o barco estava em Trieste para manutenção quando a invasão da Ucrânia pela Rússia provocou sanções generalizadas e o confisco de bens russos.

Iate de 143 metros virou símbolo de desgaste no porto

Entre os bens confiscados estava a embarcação de cerca de 143 metros. Ela já foi chamada de “o iate mais feio do mundo” e, para os moradores, é simplesmente “A”, nome que eles usam com desprezo. Projetado por Philippe Starck, o superiate tem janelas quase invisíveis, embutidas em uma estrutura de aço blindado que reluz.

Seus três mastros giratórios de carbono têm a altura de um prédio de oito andares. A silhueta se tornou uma presença constante no movimentado porto, onde dezenas de navios de cruzeiro atracam toda semana.

Prefeito cobra quem paga a conta e fala em quase 11 milhões de dólares por ano

Em setembro de 2025, o prefeito Roberto Dipiazza transformou a questão em uma campanha pública: quem está pagando pelas taxas de atracação e pela manutenção do iate? Ele chamou a situação de “vergonha” e ameaçou vender a embarcação ou levá-la para outro lugar.

Dipiazza disse à CNN que manter o barco custa cerca de 30 mil dólares por dia, ou quase 11 milhões de dólares por ano (cerca 60,5 milhões de reais). Na conta entram a tripulação de 20 pessoas, o combustível dos geradores, a limpeza especializada, a segurança e o seguro.

Pela legislação italiana, uma embarcação sob sequestro judicial precisa ser conservada e não pode ser abandonada à ferrugem ou ao naufrágio. Se as sanções contra Melnichenko forem suspensas, ele terá de ressarcir essas despesas para reaver o barco.

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“No fim das contas, sairá mais barato para ele comprar um iate novo do que arcar com tudo o que gastamos”, afirmou Dipazza. “E como ficamos nós nessa história? Podemos acabar pagando pela manutenção dessa monstruosidade por anos a fio.”

Melnichenko, banqueiro e industrial com fortuna estimada em cerca de 20 bilhões de dólares, contestou a apreensão no verão de 2022. Ele sustentou que o barco não estava em seu nome, e sim com a empresa Valla Sails, por meio de um fundo criado por sua esposa.

O caso passou primeiro por um tribunal em Roma, em 2022. Depois, foi parar no Tribunal de Justiça da União Europeia, que decidiu, em 2025, que a Itália pode manter o iate sob sequestro e, por consequência, tem a obrigação de conservá-lo.

Scheherazade também pesa no orçamento da Toscana

O “Sailing Yacht A” não é o único iate russo que custa caro à Itália. No porto toscano de Marina di Carrara, o superiate “Scheherazade”, com seis conveses e cerca de 142 metros de comprimento, fica atracado atrás de muros altos, longe de olhares curiosos.

Segundo relatos, o barco está registrado em nome de Eduard Khudainatov, executivo da Rosneft. Já o líder da oposição russa, Alexei Navalny, afirmou que o iate pertence, na verdade, ao presidente russo, Vladimir Putin.

No dia 28 de agosto deste ano, o iate deixou o porto rumo ao norte, em direção à Riviera Italiana, segundo sinais de transponder registrados pelo “Vessel Finder”. Ele seguiu escoltado de perto por forças de segurança italianas e voltou dez horas depois.

Um porta-voz do “Italian Sea Group”, grupo em cujo estaleiro o iate está atracado, descreveu a saída como testes técnicos, parte de um processo de manutenção.

Segundo o “Superyacht Times”, o superiate, avaliado em 700 milhões de dólares, tem dois helipontos e uma piscina que pode ser convertida em pista de dança. O contrato de atracação estava pago até setembro, de acordo com registros fiscais aos quais a CNN teve acesso.

O Italian Sea Group não revela quem pagou, nem quem paga atualmente, por esses custos.

Desde a apreensão, os contribuintes da Toscana já desembolsaram mais de 15 milhões de dólares para manter uma tripulação mínima, formada por britânicos e russos e trocada várias vezes ao ano, segundo a imprensa local. No ano passado, uma equipe de filmagem que tentou se aproximar do barco foi afastada por drones e jatos de água. A segurança existe para impedir qualquer aproximação e garantir que o iate não zarpe enquanto estiver sob apreensão.

Lady M, Lena e outros iates seguem sob custódia europeia

Entre as outras embarcações mantidas pela Itália está o Lady M, um super iate de aproximadamente 64 metros pertencente a Alexei Mordashov, aliado de Putin e acionista majoritário da Severstal, a maior siderúrgica e mineradora da Rússia. Segundo a Forbes, o patrimônio líquido de Mordashov é de quase 37 bilhões de dólares.

O Lady M está retido em Imperia e, até o momento, custou aos contribuintes italianos cerca de 2 milhões de dólares, informou à Forbes Matteo Bonjean, vice-diretor do porto de Marina di Imperia. Perto dali também fica o super iate Lena, de cerca de 38 metros, que pertence a Gennady Timchenko, outro aliado de Putin.

Todas as embarcações retidas têm tripulações responsáveis pela manutenção, e o governo italiano cobre esses custos. Há ainda gastos com ar-condicionado, usado para evitar o surgimento de mofo no interior dos barcos.

A Itália não é o único país europeu a arcar com iates apreendidos. A Alemanha mantém o “Dilbar”, avaliado em US$ 800 milhões e que pertenceu à irmã do magnata russo Alisher Usmanov, alvo de sanções. A França cuida do “Amore Vera”, iate do oligarca sancionado Igor Sechin, e a Espanha mantém o “Tango”, que pertence ao oligarca russo Viktor Vekselberg, também alvo de sanções.

Gibraltar conseguiu leiloar o “Axioma”, iate de aprox. 72 metros pertencente ao magnata russo do aço Dmitry Pumpyansky, por cerca de US$ 37,5 milhões, segundo a agência de notícias Reuters. Já os Estados Unidos venderam várias embarcações, entre elas o “Amadea”, que pertencia ao político russo Suleiman Kerimov, alvo de sanções em duas ocasiões.

Nem todos os países, porém, optam por arcar com os custos quando a legislação nacional não exige isso. O “Luminosity”, iate de aprox. 108 metros pertencente ao russo Andrey Guryev, também alvo de sanções, está retido em Montenegro e vem sendo deixado à própria sorte, sofrendo com ferrugem e deterioração.

Em 2024, Montenegro tentou vender o iate por € 135 milhões, mas a transação foi bloqueada. Por isso, a embarcação segue abandonada na marina Porto Montenegro, em Tivat. No mês passado, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, alertou o Senado de que qualquer flexibilização ou negociação com Moscou representaria “uma escolha extremamente arriscada”.

Meloni tem defendido com firmeza a manutenção das sanções contra oligarcas russos ligados a Putin. Muitos outros, a exemplo do prefeito de Trieste, Dipiazza, defendem que os contribuintes não deveriam pagar a conta da manutenção desses “brinquedos” dos oligarcas.

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