IAC perde dez programas de melhoramento genético por falta de reposição de cientistas

O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) perdeu, nas últimas décadas, dez programas de pesquisa focados no melhoramento genético de culturas agrícolas. O motivo, segundo a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), é a falta de reposição de cientistas.
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O levantamento da entidade mostra que os estudos interrompidos envolvem culturas como arroz, algodão, soja, trigo, girassol, gergelim, mamona, crotalária, aveia e triticale.
Atualmente, o Centro de Grãos e Fibras do IAC, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, conta com apenas sete pesquisadores. A APqC atribui a redução drástica do quadro a aposentadorias e falecimentos, principalmente de especialistas em melhoramento genético, que não foram substituídos.
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Programas de pesquisa paralisados e risco para a segurança alimentar
Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC, afirma que as linhas de pesquisa suspensas estão diretamente ligadas à produção de alimentos e à segurança alimentar. Para ela, interromper programas construídos ao longo de décadas por falta de reposição de pessoal é uma “negligência grave do Estado com um patrimônio científico que pertence à sociedade”.
Além dos dez programas já paralisados, outros sete estão em situação crítica, sendo conduzidos por apenas um pesquisador cada. É o caso de culturas como milho, milho – pipoca, sorgo, sorgo forrageiro, grão – de – bico, adubos verdes e vassoura.
De acordo com a associação, algumas dessas linhas sobrevivem apenas para a produção de sementes, sem a presença de um especialista em melhoramento.
A entidade alerta que essa manutenção precária não garante a continuidade da pesquisa.
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Patrimônio genético ameaçado pela falta de cientistas
A redução de cientistas também coloca em risco os bancos de germoplasma do IAC. Esses acervos guardam materiais genéticos essenciais para o desenvolvimento de novas variedades agrícolas, incluindo características que podem ajudar a enfrentar pragas, doenças e mudanças climáticas.
Algumas linhagens preservadas pelo instituto já não existem mais no mercado comercial.
A manutenção desses bancos exige trabalho constante. As sementes armazenadas precisam ser levadas ao campo periodicamente para multiplicação e renovação, já que a capacidade de germinação diminui com o tempo. No caso do milho, por exemplo, a conservação de certas linhagens demanda isolamento de áreas e polinização manual para evitar cruzamentos indesejados.
A APqC informa que a falta de pesquisadores já causou a perda de germoplasma de girassol, após a morte da cientista responsável pelo programa.
Em entrevista ao CNN Agro News, Helena Lutgens reforçou que um banco de germoplasma não é um depósito estático. “Ele precisa ser mantido, avaliado e renovado. Sem pesquisadores e técnicos especializados, esse patrimônio pode ser perdido”, afirmou.
Alerta que vem de longe e fuga de cérebros para a Embrapa
O problema não é novo. Um relatório da própria direção do IAC, de agosto de 2009, já alertava para o risco de perda de capacidade científica sem a reposição de profissionais. Na época, o instituto tinha 197 pesquisadores. O documento previa uma queda de cerca de 39% em cinco anos e de 79% em dez anos, considerando as aposentadorias.
O Centro de Grãos e Fibras já estava entre os mais críticos, com 22 cientistas em 2009, após a saída de 15 entre 2005 e 2008.
Dezessete anos depois, o Centro tem apenas sete pesquisadores. Além das aposentadorias, o IAC perdeu profissionais para outras instituições. Segundo a APqC, três pesquisadores que atuavam em melhoramento genético foram trabalhar na Embrapa. A associação aponta a diferença de remuneração entre as carreiras como um dos fatores que dificultam a retenção de cientistas.
A entidade também critica mudanças na carreira dos pesquisadores paulistas, estabelecidas pela Lei Complementar nº 1.435/2025, em vigor desde dezembro do ano passado. A lei alterou a estrutura da carreira, extinguiu o Regime de Tempo Integral (RTI) e ampliou de seis para 18 os níveis de progressão funcional.
A APqC afirma que parte das mudanças ainda precisa de regulamentação. Em uma ação civil pública movida pela associação, a Justiça de São Paulo impediu que o Estado exigisse a opção pelo novo regime antes da regulamentação dos pontos pendentes.
Para Helena Lutgens, a perda de profissionais significa a perda de conhecimento acumulado. “Quando não há novos pesquisadores suficientes para assumir as linhas de pesquisa, há um apagão científico”, disse. Ela alerta que, hoje, além de programas paralisados, alguns bancos de germoplasma estão sem a manutenção adequada. A conservação desses acervos e o desenvolvimento de novas cultivares dependem de áreas experimentais, como a Fazenda Santa Elisa, em Campinas, que abriga experimentos e parte dos bancos do IAC. O desafio, segundo a entidade, é recompor as equipes antes que a perda de pesquisadores resulte na perda definitiva de materiais genéticos e de conhecimento científico.
Autor(a):
Pedro Santana
Ex-jogador de futebol profissional, Pedro Santana trocou os campos pela redação. Hoje, ele escreve análises detalhadas e bastidores de esportes, com um olhar único de quem já viveu o outro lado. Seus textos envolvem os leitores e criam discussões apaixonadas entre fãs.



