Holding da Safira aprovou cisão de R 357,5 milhões meses antes de pedido de proteção judicial

Cisão aprovada pela holding transferiu ativos e dívidas entre empresas do grupo meses antes de crise financeira ser levada à Justiça.

21/09/2026 05:24

4 min

Lâmpada
Lâmpada

Quase seis meses antes de quatro empresas do Grupo Safira pedirem proteção judicial para negociar dívidas de R 357,5 milhões, a holding que controla o grupo aprovou uma reestruturação societária. A assembleia ocorreu em 2 de março de 2026, com assinaturas eletrônicas concluídas em 31 de março, segundo ata obtida pela reportagem.

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O plano previa a transferência de parte do patrimônio da Safira Holding para duas outras empresas do grupo: a Safira Participações 2 e a Honshu Participações. Em agosto, quatro comercializadoras — Safira Administração e Comercialização de Energia, Safira Artemis Comercialização de Energia, Safira Trading e Geração de Energia e Safira Varejo Comercialização de Energia — alegaram crise financeira na Justiça e conseguiram uma tutela que suspende execuções contra elas por 60 dias.

A decisão judicial descreve a medida como uma “blindagem patrimonial temporária” para viabilizar negociações com credores.

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Patrimônios opostos na cisão

A divisão projetava dois blocos com situações financeiras bastante distintas. A Safira Participações 2 receberia R 37,55 milhões em ativos e R 132,98 milhões em obrigações, resultando em patrimônio líquido negativo de R 95,43 milhões. As dívidas eram empréstimos entre empresas do grupo — os chamados mútuos — e incluíam R 87,9 milhões devidos à Safira Administração, R 33,42 milhões à Safira Trading e R 11,66 milhões à Safira Artemis.

Essas três são justamente as comercializadoras que, meses depois, buscariam proteção judicial.

Já a Honshu Participações sairia com patrimônio líquido positivo. Antes da cisão, a empresa já tinha R 39,02 milhões em ativos, classificados como investimentos, e nenhum passivo. Com a operação, seu ativo total subiria para R 47,74 milhões, com apenas R 40 mil em obrigações, gerando um patrimônio líquido positivo de R 47,70 milhões.

O aumento de ativos seria de cerca de R 8,72 milhões.

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Os documentos também previam que as participações da Safira Holding na Honshu e na Safira Participações 2 passariam diretamente para as duas acionistas da holding: Heiwa Holding (75%) e Hanei Holding (25%.

Justificativa e questionamentos

A justificativa formal da cisão, registrada na Ata da Assembleia Geral Extraordinária, foi aumentar a eficiência administrativa, operacional, contábil, societária, financeira e econômica do grupo. O documento afirma que “a operação permitirá a adequada alocação de ativos e passivos entre as Sociedades envolvidas, refletindo de forma mais fiel a estrutura econômica e operacional do grupo”.

Os valores foram calculados com base num balanço especial de 31 de janeiro de 2026.

Embora os documentos não relacionem a cisão à crise financeira apresentada meses depois, fontes ouvidas sob condição de anonimato levantaram a possibilidade de que a reorganização tenha separado patrimônio em empresas que ficaram de fora do pedido de proteção judicial.

A documentação analisada, porém, não permite confirmar esse objetivo. A Safira Holding, a Safira Participações 2 e a Honshu não integram o pedido de tutela.

A própria Safira Holding também mudaria de situação. Antes da cisão, tinha R133,41 milhões em ativos e patrimônio líquido negativo de R 15,9 milhões. Depois da reorganização, permaneceria com R 48,1 milhões em ativos e patrimônio líquido positivo de R 31,79 milhões.

No total, o acervo a ser transferido tinha saldo líquido negativo de R 47,73 milhões.

Credores e prazos

A Safira Holding publicou um aviso aos credores, que tiveram 90 dias a partir da publicação para se opor formalmente à cisão. O documento afirma que a operação só teria efeitos após o fim desse prazo sem oposição ou depois da solução de eventuais contestações.

Permanece em aberto se a cisão já produziu efeitos e se houve oposição.

Na decisão que concedeu a proteção de 60 dias, a Justiça considerou que os documentos contábeis apresentados pelas comercializadoras sustentavam a crise de liquidez. As quatro empresas passaram de resultados positivos para prejuízo líquido entre 2024 e 2025, e o caixa conjunto caiu de aproximadamente R 27,5 milhões para R 14,2 milhões.

Outro ponto que chamou a atenção de agentes do setor elétrico é que não aparecem bancos, FIDCs ou securitizadoras como credores na lista de R357,5 milhões. Os créditos são classificados como decorrentes de contratos de energia, distribuídos entre agentes do setor e consumidores.

Fontes ouvidas apontam como possível explicação as garantias adicionais exigidas em operações financeiras, como aval ou fiança de sócios, mas os documentos não confirmam essa hipótese. O Banco Daycoval, porém, aparece na decisão judicial com quatro títulos da Safira Administração levados a protesto entre junho e agosto, num total aproximado de R 667,6 mil.

Também não está claro qual seria o impacto, para as três comercializadoras, da transferência de quase R 133 milhões que elas tinham a receber da holding para a Safira Participações 2. A reportagem procurou os representantes da Safira em diversas ocasiões, mas a empresa não quis se manifestar.

O caso se soma a uma crise mais ampla entre comercializadoras de energia, que já gerou pedidos de recuperação judicial, renegociações e disputas com credores. Levantamento da CNN com base em casos conhecidos indica que os passivos associados a esse segmento somam valores expressivos.

Autor(a):

Lucas Almeida é o alívio cômico do jornal, transformando o cotidiano em crônicas hilárias e cheias de ironia. Com uma vasta experiência em stand-up comedy e redação humorística, ele garante boas risadas em meio às notícias.

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