Fifa pode ir à Justiça por premiação desigual: jogadoras de 45 países e FIFPRO pedem igualdade
A Fifa pode enfrentar uma ação na Justiça movida por jogadoras de seleções de diferentes países, caso as negociações por igualdade na premiação das Copas do Mundo masculina e feminina não avancem. O alerta foi feito pelo The Athletic na quinta-feira, 5, com base em informações sobre as tratativas entre a entidade, sindicatos nacionais e a FIFPRO.
Faltando menos de um ano para o Mundial feminino de 2027, que será disputado no Brasil, jogadoras de 45 países, junto com a FIFPRO, enviaram em setembro uma carta à Fifa. O documento traz sugestões para aproximar os pagamentos dos valores das competições masculinas.
Entre as signatárias estão atletas da Espanha, atual campeã mundial, da Inglaterra, campeã europeia, e dos Estados Unidos.
O que as jogadoras pedem à Fifa
A carta apresenta três reivindicações. A principal é a igualdade proporcional entre as premiações dos dois torneios, mantendo a regra de que pelo menos 30% do valor destinado ao torneio feminino vá direto para as atletas.
As outras duas propostas tratam da criação, em conjunto com a FIFPRO, de padrões mínimos globais para as seleções femininas e da assinatura de um acordo coletivo vinculante entre a entidade e o sindicato. Para as jogadoras, a igualdade precisa valer tanto para a remuneração quanto para as condições de trabalho.
Pela carta, a meta é deixar um cenário mais profissional para as próximas gerações, e o grupo quer regras permanentes, não decisões pontuais tomadas pela Fifa a cada edição.
Quanto as duas Copas pagam
A diferença financeira é o centro do impasse. Na Copa do Mundo Feminina de 2023, disputada na Austrália e na Nova Zelândia, a Fifa separou US$ 110 milhões para premiação, além de US$ 40 milhões para a preparação das seleções e benefícios a clubes que cederam atletas.
Para o Mundial de 2027, no Brasil, a expectativa é de que a premiação chegue a pelo menos US$ 220 milhões, mais que o dobro da edição anterior. A proposta ainda precisa ser detalhada e aprovada pelo Conselho da Fifa, com discussão prevista para dezembro. Mesmo assim, o montante continuaria longe do que foi pago na Copa do Mundo masculina de 2026, realizada na América do Norte, quando a entidade destinou US$ 655 milhões em premiações por desempenho às 48 seleções. O feminino terá 32 seleções, e essa diferença precisa entrar na conta. Ainda assim, a estimativa apresentada nas discussões indica que a proposta de 2027 não alcançaria a igualdade proporcional pedida.
Quais argumentos podem levar o caso à Justiça
Representantes de sindicatos nacionais avaliam, de acordo com o The Athletic, que há fundamentos jurídicos para contestar o tratamento desigual. Um dos pontos citados é o artigo 23 do Código de Ética da própria Fifa, que trata de discriminação.
As jogadoras também questionam a adoção de critérios objetivos para limitar a premiação feminina, enquanto regras equivalentes não são aplicadas ao torneio masculino.
A reportagem diz que os representantes dos atletas apresentaram estudos sobre a capacidade financeira da entidade para ampliar os pagamentos. As reservas da Fifa são estimadas em cerca de US$ 6 bilhões. Uma eventual ação não seria apresentada pela FIFPRO, e sim conduzida por jogadoras junto com sindicatos nacionais.
A entidade global firmou um memorando de entendimento com a Fifa em junho de 2026, comprometendo-se a retirar processos em andamento e a não apoiar novas ações fora da estrutura regulatória do futebol.
Fifa e FIFPRO falam em avanços nas conversas
Procuradas pelo The Athletic, Fifa e FIFPRO divulgaram uma declaração conjunta. Nela, afirmam que as conversas seguem em andamento e que há avanços. As organizações ressaltaram que a carta faz parte do diálogo habitual entre sindicatos e entidades esportivas.
Elas lembraram que um processo parecido ocorreu antes da Copa de 2023, quando foram obtidas melhorias como a garantia de 30% da premiação e padrões de viagem e hospedagem equivalentes aos dos homens. Para 2027, a Fifa anunciou em outubro o aumento para US$ 2,5 milhões na preparação de cada uma das 32 seleções classificadas, valor equivalente ao previsto para as equipes masculinas em 2026.
Também prometeu serviços e condições de viagem no mesmo padrão do torneio masculino. Eventuais excedentes financeiros da competição deverão ser distribuídos às associações participantes, com uma parcela reservada às jogadoras, e o modelo ainda será discutido pelo Conselho da Fifa.
Mesmo com a possibilidade de disputa judicial, Fifa e FIFPRO dizem estar otimistas com o andamento das conversas.
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