Elo entre Luiz Gonzaga e Pedro Raymundo aproxima a música gaúcha e a nordestina

Texto relembra a frase de Caetano Veloso, “o Rio Grande do Sul é a Bahia”, e a influência de Pedro Raymundo sobre Luiz Gonzaga.

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Luiz Gonzaga e Pedro Raymundo | Foto: Reprodução

Em 1999, durante uma viagem a Pilar, o autor fez observações sonoras que levantaram questionamentos sobre as fronteiras culturais brasileiras. Caminhando pela cidade em busca das raízes musicais locais, ele ouviu ritmos variados — desde um vanerão até xotes pé de serra —, percebendo semelhanças melódicas entre regiões distintas como Caatinga e Rio Grande do Sul.

Essa percepção foi reforçada por comentários artísticos; mais tarde, Caetano Veloso afirmou: “O Rio Grande do Sul é a Bahia…”. Embora essa declaração tenha levado à discussão da dissolução regional na música popular, o autor se concentrou no mote inicial dos sons que pareciam conectar dois mundos geográficos diferentes.

Ele recordou versos de Jerônimo Jardim em “Eu vim do Sul”, que já apontavam para uma mistura natural entre o xote gaúcho e os ritmos sertanejos.

A influência histórica entre Gonzaga e Pedro Raymundo

Anos depois dessa viagem pessoal ao Nordeste, trabalhando com acervo acadêmico na Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF), foi possível estabelecer um elo significativo: a relação cultural entre Luiz Gonzaga e o músico Pedro Raymundo.

Embora alguns questionassem como essa conexão poderia existir se nenhum dos artistas fosse nativo do Rio Grande do Sul — fato que é confirmado pela pesquisa —, os registros apontaram para encontros no Rio de Janeiro. Na época em que “Adeus, Mariana” era sucesso estrondoso por parte de Raymundo, ele chegou à capital fluminense trajando uma pilcha completa composta por chapéu grande, bombachas, pala, botas e lenço no pescoço.

Luiz Gonzaga demonstrou sagacidade ao perceber na vestimenta aparente absurdo não apenas um traje folclórico exagerado; tratava-se da expressão autêntica de quem vivia a cultura gaúcha ou sertaneja sem vergonha do seu povo. Para Pedro Raymundo, as roupas eram questão de honra: cantar para os conterrâneos que estavam em casa (o Pampa).

O encontro dos ritmos nordestinos

A presença desses artistas também se fez notar no Rio e São Paulo, onde era possível encontrar uma forte representação cultural nortista. O Rei do Baião comentou essa aceitação regional numa entrevista ao jornal O Pasquim.

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“Quando mandei buscar meu chapéu de couro no sertão, eu já estava vendo Pedro Raimundo na Rádio Nacional abafando”, relatou Gonzaga.

Essa interação não foi apenas visual; ela moldou a identidade artística dos músicos: Lua pensou “Ele é gaúcho, vou ser cangaceiro”. A composição definitiva do traje para Luiz Gonzaga ocorreu após ele entender como vaqueiros nordestinos eram considerados fortes dentro das paisagens mais áridas.

A simbiose cultural na música brasileira

O ponto de convergência musical entre os dois artistas ficou ainda mais claro na fala de Santanna, O Cantador. Ao perguntar sobre sua influência sonora principal no repertório de Gonzagão, o cantor não hesitou ao citar Pedro Raymundo: “Foi esse cara aí que me influenciou”.

“Ele é gaúcho… Eu vou ser cangaceiro”, brincava ele; e demonstrou a ligação apontando como nos primeiros trabalhos era possível notar tanto Gonzaga “cantando e imitando a voz” quanto tocando instrumentos inspirados nele.

Santanna concluiu descrevendo uma simbiose entre as duas nações brasileiras — aquela do Sul (gaúcha) e a nordestina. Embora reconheça outras culturas fortes no país, incluindo os povos indígenas ou o folclore pantaneiro, Santanna argumenta pela unidade desses grupos ao analisar critérios de “Identidade Cultural”, “história compartilhada” e “sentimento de pertencimento”.

O parentesco das tradições

Para quem vivenciou essa história em Pilar, ficou evidente que não há nada surreal nessa relação cultural; é um simples parentesco musical entre as músicas sertanejas e gaúchas.

A análise aponta para uma célula comum na música do interior brasileiro. O autor conclui citando o contraste: “Lá no meu rádio só se ouvia Gonzagão / Mas o vizinho tocava Pedro Raymundo”, evidenciando a profunda ligação de ritmos como gaita com zabumba leguero, pala com gibão, provando que talvez os povos das coxilhas e dos sertões compartilhem mais tempo histórico em suas vidas menos mutáveis.

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