Doenças Autoimunes: A Realidade Oculta da Experiência Feminina em Consultórios

Reflexões sobre doenças autoimunes revelam a complexidade da experiência feminina. Entenda como a desigualdade de gênero impacta diagnósticos e tratamentos

31/05/2026 05:36

4 min

Doenças Autoimunes: A Realidade Oculta da Experiência Feminina em Consultórios
(Imagem de reprodução da internet).

Reflexões sobre Doenças Autoimunes e a Experiência Feminina

Com o passar dos anos na prática clínica, percebi que o prontuário de uma paciente é apenas o início de uma realidade muito mais complexa. Essa compreensão me levou a valorizar a escuta em vez da certeza, pois, no consultório, o que se apresenta não são apenas sintomas, mas histórias que os exames não conseguem captar completamente.

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Quando analisamos que aproximadamente 80% dos diagnósticos de doenças autoimunes no mundo são feitos em mulheres, fica evidente um problema de saúde que ainda não é tratado com a profundidade necessária. As doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imunológico se desregula e ataca as células do próprio corpo, abrangendo uma ampla gama de condições que podem afetar diversos tecidos e órgãos.

Desigualdade de Gênero nas Doenças Autoimunes

A disparidade entre os gêneros se torna ainda mais clara ao observarmos patologias específicas. Por exemplo, no caso do lúpus eritematoso sistêmico, a proporção é de nove mulheres para cada homem. Um padrão semelhante é observado na colangite biliar primária e na síndrome de Sjögren, ambas com uma proporção de 9 para 1.

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Em um nível intermediário, a esclerodermia afeta cerca de seis mulheres para cada homem. Já as doenças da tireoide, como a tireoidite de Hashimoto, e a artrite reumatoide apresentam proporções de cinco para um e quatro para um, respectivamente.

Portanto, além de analisar marcadores laboratoriais, o trabalho clínico deve reconhecer que, por trás de cada resultado, existe uma mulher que busca sustentar sua rotina, seus planos e sua identidade.

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A Biologia e Seus Limites

A ciência revela que o feminino é, por natureza, mais reativo. A presença de dois cromossomos X resulta em uma maior densidade de genes que regulam a imunidade. Embora o organismo tente equilibrar essa “dose dupla” por meio da inativação de um dos cromossomos X na maioria das células, muitas vezes isso resulta em um estado de prontidão excessiva.

Além disso, o estrógeno atua como um estimulante para as células de defesa, uma característica que não é um “defeito”, mas sim um legado evolutivo.

Historicamente, essa “hiperatividade imunológica” foi crucial para a sobrevivência feminina em momentos de vulnerabilidade extrema, como durante partos e grandes infecções em contextos adversos. Contudo, essa mesma força, que protegeu a espécie por milênios, pode se voltar contra o organismo em ambientes de estresse e predisposição genética.

Desafios no Diagnóstico das Doenças Autoimunes

Na prática clínica, é comum que as doenças autoimunes se manifestem de forma silenciosa, com sintomas difusos e pouco específicos, como fadiga persistente, dores articulares e lesões na pele. Essas manifestações frequentemente não se organizam imediatamente em um quadro diagnóstico claro, resultando em um longo percurso até a confirmação da doença.

A tecnologia tem ampliado nossa capacidade de diagnóstico, permitindo a identificação de autoanticorpos antes do surgimento dos sintomas clínicos, o que representa um avanço significativo. No entanto, nem todos os indivíduos assintomáticos que apresentam autoanticorpos desenvolverão, necessariamente, uma doença autoimune.

A Importância do Contexto e da Escuta na Prática Clínica

Ferramentas digitais e sistemas de apoio à decisão também auxiliam na análise de dados e no acompanhamento das pacientes. Contudo, é essencial integrar os achados laboratoriais com uma avaliação clínica detalhada. Ampliar o cuidado envolve compreender o contexto em que essas doenças se desenvolvem.

O estresse psicológico, por exemplo, é um fator reconhecido na ativação de crises em doenças como lúpus e artrite reumatoide.

Esse estresse não ocorre isoladamente, mas está associado a condições de vida, sobrecarga de responsabilidades e pressões sociais que impactam diretamente a saúde. O corpo responde a essas condições de maneira integrada, e áreas como sociologia e psicologia oferecem contribuições valiosas para a prática clínica, ajudando a entender fatores que influenciam o curso da doença e que não aparecem nos exames laboratoriais.

Viver com Doenças Autoimunes

Integrar diferentes dimensões da experiência da paciente é fundamental. Isso inclui o tratamento medicamentoso, o acompanhamento contínuo, a orientação sobre hábitos de vida e, principalmente, a escuta qualificada. Viver com uma doença autoimune exige ajustes constantes.

Com o acompanhamento adequado, muitas pacientes conseguem manter seus planos pessoais e profissionais, mas isso depende de um cuidado contínuo e individualizado.

A saúde, nesses casos, não deve ser vista apenas como a ausência de doença, mas como a capacidade de sustentar uma vida possível, com acesso ao cuidado, estabilidade clínica e reconhecimento das próprias limitações, sem que isso signifique abrir mão de seus projetos e identidade.

*Texto escrito por Luís Eduardo Coelho Andrade, médico reumatologista e assessor médico da área de Imunologia do Grupo Fleury (CRM/SP 38661 | RQE 10570)

Autor(a):

Lucas Almeida é o alívio cômico do jornal, transformando o cotidiano em crônicas hilárias e cheias de ironia. Com uma vasta experiência em stand-up comedy e redação humorística, ele garante boas risadas em meio às notícias.

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