Cientistas criam mapa genético do cérebro em busca de tratamentos para Alzheimer e Parkinson
O mapa genético do cérebro revela vias comuns entre Alzheimer e Parkinson, acelerando a busca por novos tratamentos.
Cientistas criaram o mapa mais detalhado já feito da atividade dos genes no córtex pré – frontal, uma região do cérebro essencial para funções como planejamento, tomada de decisões e regulação emocional. A pesquisa, publicada nesta quarta – feira na revista Nature, promete acelerar a busca por novos tratamentos para doenças como Alzheimer, Parkinson e esquizofrenia.
O estudo analisou núcleos de mais de 6,3 milhões de células cerebrais — entre neurônios, células imunológicas e de suporte — de 1.494 doadores falecidos. As idades variavam da infância até os 108 anos, e os doadores incluíam pessoas sem diagnóstico de distúrbio cerebral e outras com Alzheimer, Parkinson, demência com corpos de Lewy, demência vascular, esquizofrenia e transtorno bipolar.
O que o mapa revela sobre as doenças
O trabalho foi conduzido pelo consórcio PsychAD, com apoio do Instituto Nacional sobre Envelhecimento, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. O objetivo foi identificar quais processos biológicos ocorrem em tipos celulares específicos e como eles se relacionam com diferentes distúrbios.
“Um tratamento eficaz precisa atingir o processo biológico correto nas células certas. Esse mapa ajuda a restringir essa busca”, afirmou o Dr. Panos Roussos, diretor do Centro de Neurogenômica de Doenças da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, em Nova York, e um dos líderes da pesquisa.
Os cientistas descobriram que Alzheimer, doença de Parkinson, demência com corpos de Lewy e demência vascular compartilham alterações na atividade gênica ligadas ao desenvolvimento dos neurônios, à comunicação entre as células nervosas e à biologia dos vasos sanguíneos.
Também identificaram vias comuns entre Alzheimer e Parkinson nas micróglias, as células imunes do cérebro.
Transição aos 24 anos e o envelhecimento cerebral
Ao comparar amostras de doadores de diferentes idades, os pesquisadores observaram mudanças intensas na atividade genética durante o desenvolvimento até a idade adulta, uma fase de estabilidade na maior parte da vida e novas alterações na velhice, especialmente nas células imunológicas e de suporte.
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“Isso fornece uma referência para distinguir o envelhecimento típico das alterações associadas à doença”, disse Roussos. O estudo aponta os 24 anos como um ponto de transição, a partir do qual a maioria dos tipos celulares no córtex pré – frontal se torna mais estável. “Isso não significa que o cérebro termine de se desenvolver no dia em que alguém completa 24 anos, nem que o declínio comece nessa idade”, ponderou o pesquisador.
Os pesquisadores também analisaram padrões celulares ligados à cognição e à depressão em pacientes com Alzheimer. Pessoas que mantiveram a função cognitiva mesmo com patologia significativa da doença apresentaram diferenças nos processos relacionados à energia em células específicas. “Isso fornece pistas sobre possíveis mecanismos de proteção que precisam de testes adicionais”, acrescentou Roussos.
Ritmos biológicos e variação entre pacientes
Outro achado importante envolve o relógio biológico. Em adultos mais jovens e de meia – idade, os genes que controlam os ritmos circadianos atuam de forma coordenada nos neurônios. Já nos mais velhos, esses padrões se mostraram mais fracos e menos sincronizados. “Se a restauração desses ritmos poderia melhorar a saúde cerebral é uma questão importante para pesquisas futuras”, disse Roussos.
Os pesquisadores também mapearam influências genéticas na atividade de mais de 14 mil genes e desenvolveram perfis moleculares de doadores com Alzheimer. As diferenças na regulação gênica entre indivíduos com o mesmo diagnóstico ajudam a explicar a variação biológica da doença. “Isso fornece uma base para investigar estratégias de tratamento mais individualizadas”, concluiu o cientista.