Caçadores da Idade do Gelo chuchavam nozes de areca para energia e alívio de dores

Caçadores da Idade do Gelo na Indonésia mastigavam nozes de areca há até 25 mil anos, antecipando em milênios o uso de psicoativos.

12/09/2026 04:02

3 min

A ilha indonésia de Sulawesi é mostrada em detalhe, com a localização dos dois sítios arqueológicos na península sudoeste da ilha indicada
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Uma descoberta arqueológica na Indonésia reescreve a história do uso de drogas vegetais pela humanidade. Pesquisadores encontraram, na ilha de Sulawesi, as evidências mais antigas já registradas do consumo habitual de uma substância neuroativa: a noz de areca.

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A análise de fósseis dentários de caçadores – coletores que viveram entre 25 mil e 16 mil anos atrás revelou marcas e resíduos químicos que comprovam o hábito.

Os cientistas analisaram restos esqueléticos de dois indivíduos pré – agrícolas. Um deles, chamado Maros – LBB-1a (Leang Bulu Bettue), é um maxilar superior com molares do Pleistoceno Tardio. O outro, CPL – R2a (Leang Cappalombo 1), é o esqueleto de um homem adulto da cultura Toaleana, datado do Holoceno Médio (entre 7,6 mil e 6,3 mil anos atrás.

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Até então, acreditava – se que o uso de plantas psicoativas, incluindo a noz de areca, tinha surgido com a agricultura no Neolítico ou com a expansão de populações Austronésias, há cerca de 4 mil anos.

Marcas nos dentes e experimentos em laboratório

Os dois esqueletos apresentavam um padrão de desgaste dentário severo, com sulcos arredondados e cavados, algo nunca antes descrito na literatura arqueológica. O formato e o diâmetro das marcas, de 10 a 20 mm, indicam que esses caçadores da Idade do Gelo mantinham um objeto duro e esférico — como a semente inteira de noz de areca — preso entre os dentes, roendo – o por longos períodos.

Nenhum dos dentes exibia a coloração avermelhada intensa típica do consumo moderno da mistura com cal, o que descartou a mastigação da preparação tradicional.

Para confirmar a hipótese, a equipe realizou testes laboratoriais. Os experimentos demonstraram que o simples ato de chuchar a noz inteira, sem cal e sem esmagar, libera arecolina em quantidade suficiente para provocar efeitos no corpo, como o aumento excessivo de saliva.

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O processo liberou compostos ativos de baixo peso molecular, mas não liberou os de alto peso molecular, associados a efeitos inibitórios ou tóxicos mais severos. A presença de arecolina foi detectada diretamente nos dentes dos dois esqueletos, comprovando quimicamente o consumo.

Uso que antecede a agricultura

Os pesquisadores não encontraram quantidades significativas de compostos que se formam apenas quando a noz é misturada com cal apagada, reforçando que a ingestão era feita sem o aditivo. Por outro lado, foram identificados compostos aromáticos da folha de betel, o que sugere que essas folhas podiam ser consumidas separadamente, por razões aromáticas ou medicinais.

O estudo recua a evidência mais antiga do uso habitual de drogas vegetais neuroativas para um período entre 25 mil e 16 mil anos atrás. Isso mostra que o comportamento antecede a agricultura em milhares de anos, contrariando a crença anterior de que essas práticas estavam ligadas ao surgimento das sociedades agrícolas.

Autor(a):

Com uma carreira que começou como stylist, Sofia Martins traz uma perspectiva única para a cobertura de moda. Seus textos combinam análise de tendências, dicas práticas e reflexões sobre a relação entre estilo e sociedade contemporânea.

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