Avanços e Desafios da Educação Básica no Brasil: O que diz Ivan Siqueira na FAPESP 2026?

Avanços na educação básica no Brasil são notáveis, mas desigualdades persistem. Ivan Siqueira analisa os desafios e oportunidades na 2ª Conferência FAPESP 2026.

28/04/2026 07:46

6 min

Avanços e Desafios da Educação Básica no Brasil: O que diz Ivan Siqueira na FAPESP 2026?
(Imagem de reprodução da internet).

Avanços e Desafios da Educação Básica no Brasil

A educação básica no Brasil tem apresentado avanços significativos nas últimas décadas, mas ainda enfrenta desigualdades profundas e um descompasso entre o modelo de ensino e as transformações tecnológicas e sociais atuais. Essa análise foi feita pelo pesquisador Ivan Siqueira, professor titular de Interdisciplinaridade da UFBA (Universidade Federal da Bahia), durante a 2ª Conferência FAPESP 2026 – “Educação Básica no Brasil: Desafios e Oportunidades”.

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Segundo Siqueira, o país ampliou o acesso à educação desde a Constituição de 1988, mas ainda há dificuldades em garantir uma qualidade que corresponda aos investimentos realizados.

“Há muitas evidências de que avançamos. No entanto, ao considerarmos os níveis de desigualdade, percebemos que ainda precisamos fazer muito mais”, destacou. Um dos pontos centrais de sua apresentação foi a diferença entre princípios e critérios na formulação de políticas públicas.

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Para ele, embora a legislação brasileira tenha diretrizes adequadas, falta a implementação de mecanismos objetivos. O pesquisador analisou o artigo 205 da Constituição, que afirma: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

Desafios na Implementação das Políticas Educacionais

Segundo Siqueira, o principal problema do artigo 205 é que ele se configura como uma declaração de princípios, sem estabelecer critérios claros. “Um princípio não é binário: é possível afirmar que se está indo em uma direção, mesmo sem alcançar o objetivo”, explicou. “Precisamos converter princípios em critérios, pois estes são objetivos e permitem a cobrança efetiva.” Essa lacuna impacta diretamente a governança educacional, especialmente em municípios com baixa capacidade administrativa. “A maior parte da educação básica está sob a responsabilidade das prefeituras, que enfrentam limitações de recursos e estrutura, especialmente na fase mais crucial do desenvolvimento humano”, afirmou.

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O professor também criticou o sistema de formação docente, que permite que professores sejam formados sem experiência prática em sala de aula. “No Brasil, é possível formar pessoas que nunca estiveram em uma escola, algo que não ocorre em áreas como a medicina”, ponderou.

Outro desafio mencionado foi a fragmentação curricular. “É ilusório pensar que um aluno consiga aprender 13 disciplinas diferentes com menos de quatro horas de aula por dia”, enfatizou. Para ele, o modelo atual pressupõe uma escola em tempo integral, que ainda não é uma realidade na maior parte do país.

Impacto das Tecnologias Digitais na Educação

Siqueira também destacou a influência das tecnologias digitais na aprendizagem, que têm afetado a atenção, a linguagem e as formas de interação dos estudantes. “O modelo tradicional de aula expositiva está ultrapassado. Ele não atende mais aos estudantes de hoje”, resumiu.

O pesquisador observou que os alunos enfrentam dificuldades crescentes de concentração e organização do pensamento: “Atualmente, é muito difícil manter um aluno focado por dez minutos. Para escrever, ele precisa pensar — e isso não está sendo exercitado”.

Além disso, ele mencionou o aumento de fenômenos como desinformação, dependência de redes sociais e problemas de saúde mental entre os estudantes.

“Na UFBA, 70% dos alunos de medicina relatam problemas de saúde mental, e na psicologia, esse percentual é ainda maior: 80%. Muitos estudantes buscam a psicologia como forma de tratamento”, contou. A inteligência artificial (IA) foi apresentada como um dos principais vetores de transformação na educação e no mercado de trabalho.

Siqueira citou demissões recentes no setor financeiro para ilustrar o impacto das tecnologias digitais. “Nos últimos quatro meses, os quatro maiores bancos dos EUA demitiram 15 mil funcionários, enquanto obtinham mais de US$ 1 bilhão de lucro. Uma pessoa com IA pode realizar o trabalho de dez, o que muda completamente o mercado”, enfatizou.

Oportunidades e Desafios na Avaliação Educacional

Ele também destacou aplicações positivas da IA no sistema educacional. “Modelos baseados na BNCC [Base Nacional Comum Curricular] podem gerar planos de aula adaptados para diferentes perfis de estudantes, reduzindo significativamente o trabalho dos professores”, afirmou.

A BNCC é o documento que define o que todos os estudantes brasileiros têm o direito de aprender ao longo da educação básica. Além disso, a adoção de novas tecnologias digitais pode facilitar o acesso a conteúdos de qualidade, a formação de comunidades de aprendizagem e a integração do currículo às realidades locais, como em comunidades indígenas e quilombolas.

No entanto, existem vários obstáculos a serem superados, incluindo o modelo de avaliação. Siqueira argumentou que exames como o do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) estão desatualizados e não capturam competências essenciais. Ele defendeu a inclusão de habilidades como pensamento crítico, metacognição e resolução de problemas complexos. “O estudante precisa saber aplicar conhecimentos em situações reais.

Não basta apenas repetir conteúdo”, afirmou.

A Desigualdade como Obstáculo à Qualidade Educacional

Para o pesquisador, a desigualdade social continua sendo o principal empecilho à qualidade da educação no Brasil. Ele mencionou as diferenças internas no município de São Paulo, onde a expectativa de vida pode variar em até 20 anos entre diferentes distritos. “Essa desigualdade começa na infância e se amplia ao longo da vida escolar”, afirmou. “Se não reduzirmos isso, será muito difícil melhorar a qualidade da educação.”

Na conclusão, Siqueira recorreu ao geógrafo Milton Santos para enfatizar a dimensão subjetiva da educação. “Identidade é o sentimento de pertencimento ao que nos pertence”, citou. Segundo ele, muitos alunos não se reconhecem na escola. “Há estudantes cujo corpo está presente, mas que não se sentem pertencentes.

Sem isso, nada faz sentido”, afirmou. O pesquisador defendeu um maior envolvimento das universidades com a educação básica. “Se a universidade não assumir esse papel, podemos esperar um desastre, que já está em curso”, alertou.

Siqueira é doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo) e já atuou como professor na ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP e na rede pública estadual de São Paulo, além de ter sido professor visitante na Kyoto University of Foreign Studies (Japão).

Ele também foi membro do Conselho Nacional de Educação e do Mercosul Educacional, desenvolvendo pesquisas em educação básica, interdisciplinaridade, tecnologias digitais e inteligência artificial aplicada à educação, com formação complementar em instituições como Stanford, Oxford e MIT.

O evento contou com a participação de Marta Arretche, coordenadora-geral de Ciências, Humanidades e Artes da FAPESP, e Oswaldo Baffa Filho, coordenador das Conferências FAPESP 2026. A moderação foi realizada por Mozart Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados – Polo de Ribeirão Preto (IEARP) da USP, que destacou a importância da discussão sobre educação básica no país. “Se não resolvermos a educação básica, não resolveremos os problemas principais do ensino superior”, afirmou, lembrando que 59% dos estudantes abandonam a universidade antes de concluir o curso.

Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.

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