Açúcar durante antibióticos reduz diversidade intestinal em 24%, aponta estudo da Nature

Consumo de doces durante antibióticos eleva risco de infecção por Enterococcus e complicações em transplantes.

O tratamento com antibióticos, combinado com uma dieta rica em açúcar, exacerbou e prolongou a proliferação da bactéria Enterococcus faecium no intestino dos pacientes

Comer doces enquanto faz uso de antibióticos pode ser uma combinação mais perigosa do que se imaginava. Um estudo publicado nesta quarta – feira na revista Nature mostra que essa mistura é capaz de danificar o microbioma intestinal de forma grave, abrindo caminho para infecções perigosas.

A pesquisa aproveitou um experimento natural: analisou pacientes com câncer internados que passaram por longos períodos de tratamento com antibióticos antes de receber transplantes de células – tronco. Como eles só consumiam comida do hospital, os cientistas sabiam exatamente o que e quanto cada um comia — algo raro em estudos de nutrição, que normalmente dependem da memória dos participantes.

O que o açúcar faz com as bactérias do intestino

O microbioma intestinal é formado por trilhões de bactérias, vírus e outros micróbios que vivem nos intestinos. Eles ajudam na digestão, produzem vitaminas e participam da função imunológica. A ciência já mostrou que a diversidade desses microrganismos está ligada à saúde: quanto mais variada a comunidade, melhor.

Os cientistas analisaram mais de 1.000 amostras de fezes de 173 pacientes, que consumiram mais de 9.400 refeições preparadas no hospital. A maioria dos alimentos não teve impacto sobre a diversidade bacteriana. Os doces, porém, fizeram diferença.

Para cada aumento de 100 gramas no consumo de doces durante o uso de antibióticos, a diversidade do microbioma caiu cerca de 24%.

Essa queda abriu espaço para a proliferação de microrganismos nocivos, como a bactéria Enterococcus faecium. Esse organismo vive no intestino sem causar problemas quando mantido sob controle por outras bactérias. Mas os antibióticos eliminam a concorrência, e o açúcar acelera o crescimento do Enterococcus.

Risco de infecção e morte após transplante

Em alguns casos, a bactéria pode atravessar a parede intestinal e cair na corrente sanguínea, provocando sepse. No contexto do transplante de medula óssea, o Enterococcus pode ainda agravar a doença do enxerto contra o hospedeiro, condição em que as células doadas atacam os tecidos saudáveis do receptor.

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A equipe testou os efeitos em camundongos. Uma única injeção de antibiótico de amplo espectro gerou um pequeno aumento no Enterococcus. Quando os animais também receberam açúcar, a quantidade da bactéria subiu 16 vezes no terceiro dia e 33 vezes no sexto dia.

Os pesquisadores também analisaram dados de mais de 4.000 pacientes que passaram por transplante de células – tronco. Aqueles que consumiam mais de 17 gramas de açúcar adicionado por dia — o equivalente a cerca de meia lata de refrigerante — apresentaram um risco 12% maior de morte após o procedimento, em comparação com quem consumia menos.

O autor do estudo, Dr. Jonathan Peled, médico e cientista do Memorial Sloan Kettering, classificou o aumento como modesto, mas significativo.

O que fazer durante o tratamento com antibióticos

O Dr. Anthony Maresso, professor de virologia e microbiologia do Baylor College of Medicine em Houston, disse que o estudo pode ter impacto. “Isso me faz pensar se deveríamos mudar a dieta dos hospitais”, afirmou Maresso, que não participou da pesquisa.

Ele questiona se a descoberta vale também para pessoas que tomam antibióticos em casa, para tratar uma infecção de ouvido, por exemplo.

Peled reconhece que o estudo não é um ensaio clínico randomizado, mas diz que não é irracional evitar o açúcar durante o uso de antibióticos. “O que nosso estudo sugere que pode funcionar não é evitar açúcar ou alimentos açucarados durante todo o período, mas especificamente quando você estiver tomando antibióticos”, afirmou.