Zuenir Ventura morre aos 95 anos e deixa legado em ‘1968’ e ‘Cidade Partida

Zuenir Ventura deixa um legado de mais de seis décadas no jornalismo e na literatura brasileira.

Zuenir Ventura, jornalista e escritor

O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu aos 95 anos. A informação foi confirmada à CNN Brasil pela Academia Brasileira de Letras (ABL.

Mineiro de Além Paraíba, Zuenir construiu uma carreira de mais de seis décadas no jornalismo impresso e na literatura. Ele se destacou por uma prosa que misturava análise política, crônica do cotidiano e uma sensibilidade rara para captar os humores do Brasil.

Sua morte representa uma perda significativa para a cultura e o pensamento crítico do país.

Trajetória marcada pela crônica e pela resistência

Zuenir Ventura iniciou a vida profissional nos anos 1950, passando por redações de veículos como a revista Manchete, o Jornal do Brasil e, posteriormente, o jornal O Globo. Foi em O Globo, aliás, que ele publicou por décadas a coluna que o tornou um dos cronistas mais lidos do país. Sua escrita, ao mesmo tempo erudita e acessível, conquistou leitores de diferentes gerações.

Na literatura, Zuenir deixou obras que se tornaram referência. O livro 1968: O Ano que Não Terminou é um dos retratos mais completos sobre aquele ano de efervescência política e cultural, que culminou no endurecimento da ditadura militar no Brasil. A obra, publicada originalmente em 1988, ganhou novas edições e continua sendo leitura obrigatória para entender o período.

Outro título de destaque é Cidade Partida, de 1994, que investiga as fraturas sociais do Rio de Janeiro a partir da violência urbana. O livro foi vencedor do Prêmio Jabuti e consolidou Zuenir como um intelectual atento às contradições do país. Seu olhar, muitas vezes, antecipava debates que só ganhariam as manchetes anos depois.

Reconhecimento e legado na Academia Brasileira de Letras

A entrada na Academia Brasileira de Letras, em 2014, coroou uma trajetória de dedicação à palavra. Zuenir ocupou a cadeira 32, sucedendo o também jornalista e escritor Ariano Suassuna. Na ABL, ele manteve uma atuação discreta, mas firme, participando de sessões e eventos que celebravam a língua e a literatura nacional.

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Amigos e colegas de ofício destacavam sua generosidade intelectual e seu humor refinado. Em entrevistas, Zuenir costumava dizer que o jornalismo era uma forma de “estar no mundo” e que a crônica, seu gênero favorito, permitia escrever sobre tudo — da política à paixão, do futebol à filosofia.

Essa versatilidade fez dele uma figura rara no meio editorial brasileiro.

O velório e o enterro do escritor ainda não tiveram detalhes divulgados pela família ou pela ABL. A expectativa é que as homenagens ocorram nos próximos dias, possivelmente no Rio de Janeiro, cidade que Zuenir adotou como lar e que serviu de cenário para grande parte de sua obra.