Voo supersônico pode retornar após 50 anos, mas desafio do barulho persiste

A nova regulamentação da FAA pode abrir caminho para o retorno dos voos supersônicos, mas a preocupação com os estrondos sonoros ainda precisa ser abordada.

O Boom XB1 da Boom Supersonic atingiu o limite de velocidade Mach, tornando-se o primeiro jato desenvolvido de forma independente a romper a barreira do som

Entre 1964 e 1970, Oklahoma City se tornou um laboratório de testes de voos supersônicos, quando a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) conduziu experimentos com aeronaves militares que geravam estrondos sônicos diários. O objetivo era avaliar a opinião pública sobre os voos que ultrapassam a velocidade do som.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Com um total de 1.253 estrondos, o experimento levantou polêmica e gerou descontentamento entre os moradores da cidade. Em 1971, o Congresso cancelou o financiamento para o avião supersônico Boeing 2707, deixando apenas o Concorde e o soviético Tupolev Tu-144 na corrida pela aviação comercial supersônica.

A partir de 1973, a FAA proibiu voos civis supersônicos sobre terras americanas como forma de evitar os estrondos sônicos. O Concorde operou de 1976 até 2003, tornando – se o único modelo comercial nesse segmento, mas não teve sucessores.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Uma nova era para os voos supersônicos

Cinquenta anos após a proibição, há sinais de revitalização para os voos supersônicos. Em junho deste ano, a FAA anunciou novas regras que incluem uma mudança no padrão regulatório, passando de uma norma baseada na velocidade para uma focada no ruído.

A agência pretende finalizar essas normas até meados de 2027. Juan Alonso, professor da Universidade Stanford, considerou essa mudança como “legislação bem – vinda”, destacando que NASA e a indústria aérea americana pressionavam por isso há bastante tempo.

No entanto, a questão do barulho ainda é um desafio significativo. Quando aeronaves ou espaçonaves rompem a barreira do som, criam ondas de choque que resultam em estrondos sônicos. Esses sons podem ser tão intensos que assustam as pessoas e até quebram janelas.

Pesquisas indicam também que esses ruídos podem impactar a saúde humana.

Leia também

Após o teste em Oklahoma City em 1964, uma pesquisa revelou que 73% dos moradores acreditavam poder conviver com os estrondos sonoros; no entanto, houve muitos processos judiciais contra os voos e cerca de 12.400 reclamações foram registradas junto à FAA.

Como resultado, a agência teve que indenizar alguns cidadãos por danos causados.

Soluções inovadoras para reduzir o impacto sonoro

Duas abordagens estão sendo desenvolvidas para permitir que futuros voos supersônicos respeitem as novas normas da FAA: a Boom Supersonic e a NASA. A primeira planeja utilizar princípios físicos para evitar que os estrondos sônicos cheguem ao solo; já a NASA opera o X-59, um avião experimental projetado especificamente para minimizar esse impacto sonoro.

O conceito do corte de Mach é central nas inovações propostas pela Boom Supersonic. Essa técnica permite que um avião voe sem gerar estrondos audíveis ao solo ao ajustar altitude e velocidade conforme as condições atmosféricas. O CEO da empresa, Blake Scholl, ressaltou essa abordagem como prática e acessível aos pilotos, mencionando um botão “silencioso” no futuro jato Overture que ajustará automaticamente a velocidade.

A NASA adota uma estratégia diferente com seu X-59, projetado para dispersar ondas de choque através de um design específico que minimiza sua intensidade ao atingir o solo — semelhante ao som de uma porta fechando à distância. O objetivo final é fornecer dados suficientes para que novas regulamentações sobre estrondos sônicos sejam estabelecidas até 2031 pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI.

Avanços nos testes do X-59

Após vários atrasos no cronograma, o X-59 realizou seu primeiro voo em finais de 2025 e alcançou velocidades supersônicas em junho deste ano. Segundo Peter Coen, gerente da missão Quest da NASA responsável pelo projeto do avião experimental, as medições das ondas de choque são essenciais para determinar se as aeronaves poderão operar sem restrições acústicas sobre terra.

A expectativa é que as inovações propostas ajudem não apenas na reintrodução dos voos comerciais supersônicos mas também na promoção do crescimento sustentável desse setor na aviação americana.