Veredito do Caso AF447 da Air France é aguardado em Paris após 17 anos de espera

Decisão crucial sobre o trágico voo AF447 da Air France será anunciada em Paris. O veredito pode impactar a responsabilidade da companhia e da Airbus.

Veredito do Caso AF447 da Air France é Esperado em Paris

Dezessete anos após a tragédia do voo AF447 da Air France, o Tribunal de Apelação de Paris deve anunciar nesta quinta-feira (21) sua decisão sobre o caso que resultou na morte de 228 pessoas no Oceano Atlântico, durante o trajeto entre o Rio de Janeiro e Paris.

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Este veredito representa mais um capítulo em uma das maiores tragédias da aviação mundial e pode redefinir a responsabilidade criminal da Air France e da fabricante Airbus no acidente ocorrido em 1º de junho de 2009. A Justiça já havia reconhecido falhas e negligência por parte das companhias.

Na ocasião, os juízes afirmaram que houve “imprudência” e “negligência”, mas não conseguiram estabelecer um vínculo causal “certo” entre as falhas e a queda da aeronave. Contudo, o Ministério Público francês alterou sua posição e agora defende a condenação da Air France e da Airbus.

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Os promotores alegam que os erros cometidos pelas empresas foram “claros” e “certamente contribuíram” para o acidente. Além disso, criticaram a postura das companhias durante o processo, afirmando que “nada foi oferecido, nem uma única palavra de consolo sincero”.

O Que Aconteceu com o Voo AF447?

O Airbus A330 da Air France partiu do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, às 19h29 do dia 31 de maio de 2009, com destino a Paris, transportando 216 passageiros e 12 tripulantes de 33 nacionalidades. Aproximadamente 3h45 após a decolagem, a aeronave atravessou uma área de tempestades no Oceano Atlântico, conhecida como “Doldrums”, próxima à linha do Equador, quando os sensores Pitot, que medem a velocidade do avião, congelaram.

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Com a falha dos sensores, o piloto automático foi desligado e os pilotos tiveram que assumir o controle manual.

De acordo com as investigações do BEA (Escritório de Investigações e Análises da França), o copiloto Pierre-Cédric Bonin reagiu de forma inadequada à pane, puxando o nariz da aeronave para cima, ao invés de manter a altitude. Essa manobra fez com que o Airbus A330 ultrapassasse sua altitude operacional ideal e entrasse em estol aerodinâmico, resultando em uma queda livre de cerca de 11,5 quilômetros por aproximadamente três minutos e meio, até atingir o oceano.

As caixas-pretas foram localizadas quase dois anos depois, em maio de 2011, a cerca de 3.900 metros de profundidade, revelando momentos de desespero na cabine.

Investigação e Desdobramentos Judiciais

O relatório final do BEA, publicado em julho de 2012, concluiu que a tragédia foi resultado da falta de preparo da tripulação para situações de perda de sustentação em alta altitude. Desde então, familiares das vítimas têm questionado a atuação das empresas e acusam as investigações francesas de minimizarem a responsabilidade da Airbus e da Air France.

Um dos pontos levantados é que já havia registros de falhas nos sensores Pitot antes do acidente, além de críticas ao treinamento oferecido aos pilotos.

Em 2023, um tribunal francês absolveu as empresas de homicídio culposo corporativo, mas a promotoria recorreu. O novo julgamento teve início em setembro de 2025 e durou cerca de dois meses. Durante as audiências, Air France e Airbus negaram novamente a responsabilidade criminal, enquanto os promotores argumentaram que ambas falharam em lidar com os problemas dos sensores de velocidade e na preparação dos pilotos.

Agora, o Tribunal de Apelação de Paris decidirá se mantém a absolvição ou se condena as empresas pelo acidente.

Discussão sobre Nexo Causal

O especialista em Defesa, Roberto Caiafa, destaca que o ponto central do julgamento é a discussão sobre o “nexo causal” entre as falhas identificadas nas investigações e a queda do voo AF447. Embora a Justiça francesa tenha reconhecido “erros e negligências” por parte da Air France e da Airbus, o tribunal anterior entendeu que não havia provas suficientes de uma ligação direta entre essas falhas e o acidente.

Caiafa alerta que uma mudança de entendimento no julgamento pode abrir um debate sensível para a indústria da aviação, ressaltando que, apesar dos investimentos bilionários, os limites da segurança aérea ainda são evidentes.