Venezuela registra 2.295 mortos e 11.267 feridos após terremotos em 24 de junho

A tragédia expõe falhas nas normas antissísmicas da Venezuela, levantando questionamentos sobre a eficácia das construções e a segurança da população.

01/07/2026 20:34

4 min

Imagens de drones mostram a devastação em La Guaira após os terremotos mortais na Venezuela
Imagens de drones mostram a devastação em La Guaira após os terr...

A Venezuela vive um momento crítico após os terremotos que abalaram o país em 24 de junho. Até a tarde desta quarta – feira (1), o balanço é alarmante: 2.295 mortos, 11.267 feridos, milhares de desaparecidos e uma quantidade de edifícios danificados que varia entre as centenas apontadas pelo governo e quase 60 mil estimados pela NASA.

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Com esses números, muitos cidadãos questionam o motivo do impacto tão devastador da tragédia. Especialistas analisam diversos fatores que contribuíram para a catástrofe, incluindo a eficácia das normas antissísmicas vigentes na Venezuela.

Normas de construção e prevenção de terremotos

A norma atual sobre prevenção de terremotos na Venezuela foi emitida em 2019 pela Covenin (Comissão Venezuelana de Normas Industriais). Rafael Camilo Gutiérrez Melgarejo, doutor em Estruturas e professor da Universidade Internacional da Flórida, explicou que essa norma, conhecida como Covenin 1756-1:2019, substituiu a versão anterior que estava em vigor desde 2001.

O Ministério da Ciência e Tecnologia publicou uma nota técnica em outubro destacando que essas normas têm sido aprimoradas desde meados do século XX para mitigar os danos causados por desastres anteriores.

De acordo com o Ministério, a norma vigente “estabelece os requisitos para a análise, o projeto e a construção de edificações em zonas sísmicas”. Para isso, a Venezuela possui um código de construção que define critérios essenciais para garantir a segurança estrutural dos edifícios.

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Além disso, existe uma classificação sísmica que indica a capacidade de uma área ou estrutura em suportar os efeitos de um terremoto.

Entre os requisitos destacados pela norma estão fundações adequadas, uso de materiais resistentes como aço e concreto dentro das especificações mínimas exigidas, dimensões compatíveis com o terreno da obra e sistemas de reforço estrutural como vigas e pilares.

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O Ministério enfatiza também a importância da fiscalização contínua durante toda a execução das obras para assegurar o cumprimento das normas.

Causas da tragédia

Desde os primeiros momentos após os terremotos, cujas magnitudes foram 7,2 e 7,5 respectivamente, especialistas investigam as circunstâncias desses eventos e outros fatores que contribuíram para os danos severos enfrentados pela Venezuela. Gutiérrez Melgarejo aponta cinco principais fatores que ajudam a explicar o impacto devastador.

O primeiro fator é caracterizado pelo fenômeno do “duplo terremoto”, onde dois tremores semelhantes ocorrem próximos em rápida sucessão. “Normalmente, as estruturas são projetadas para suportar um único evento sísmico. Contudo, quando ocorrem dois consecutivos, mesmo edificações construídas conforme as normas podem sofrer danos significativos”, explicou o especialista.

Além disso, Gutiérrez Melgarejo destaca que a baixa profundidade dos tremores — o segundo ocorreu apenas 10 quilômetros abaixo da superfície — e a localização da Venezuela próxima ao limite entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul aumentaram sua vulnerabilidade.

Os últimos dois fatores estão relacionados às normas de construção no país; muitas estruturas afetadas foram erguidas antes da implementação da norma antissísmica atual ou não atenderam às exigências dela.

A recuperação será longa

No boletim informativo divulgado na terça – feira pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, foi informado que 855 construções foram afetadas: 189 desabaram completamente e 666 sofreram graves danos. No entanto, esses números contrastam com estimativas mais altas feitas por satélite pela NASA.

O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) estimou que cerca de 8,6 milhões de pessoas foram expostas aos efeitos dos terremotos e que o impacto econômico pode alcançar aproximadamente US 6,7 bilhões — equivalente a 6% do PIB venezuelano.

Enquanto isso, as buscas por sobreviventes continuam em várias regiões do país, especialmente no estado costeiro de La Guaira.

O geógrafo Kuay Rodríguez alertou sobre os riscos persistentes nas áreas afetadas devido à possibilidade de novos tremores e à instabilidade provocada por sedimentos soltos nas montanhas. A situação é crítica: “As áreas mais baixas podem registrar tremores no solo resultantes do reajuste mecânico dos sedimentos”, afirmou ele.

Gutiérrez Melgarejo ressaltou ainda que a recuperação será um processo prolongado. “Estamos falando de anos até que o país consiga se reerguer”, alertou. Ele destacou que muitas cidades ficaram com cerca de 80% das suas infraestruturas colapsadas e lamentou a falta de um plano claro por parte do governo para organizar esse processo de reconstrução.

Autor(a):

Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.

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