Unicamp cria tecido que corta uso de agrotóxicos em 50%
Tecido criado por pesquisadores da Unicamp mantém a produtividade com metade da aplicação de defensivos em testes de campo.
Pesquisadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte (NC State), nos Estados Unidos, desenvolveram um tecido tridimensional que elevou em 3,56 vezes a colheita de morangos em testes de campo. Batizada de Plant Armor, a tecnologia cria uma barreira física contra insetos sem bloquear a passagem de luz, água e ar.
O resultado, publicado em 24 de setembro de 2026 na revista científica Agriculture, indica que o material pode reduzir a necessidade de defensivos agrícolas. A universidade divulgou os dados cinco dias depois, em 29 de setembro. Os pesquisadores, no entanto, alertam que o ganho de produtividade ainda precisa ser confirmado em condições comerciais.
Tecido impede pragas e aquece as plantas
O Plant Armor é feito de uma malha com estrutura tridimensional, com camadas externas conectadas por uma camada interna. Essa arquitetura dificulta a passagem de insetos, mas permite a circulação de ar e a entrada de água e luz solar. A proposta é proteger as culturas sem depender exclusivamente de inseticidas.
No experimento com morangos, a cobertura elevou consistentemente a temperatura em relação às áreas descobertas, sem alterar a umidade relativa do ar. Segundo os pesquisadores, o aquecimento ajudou as plantas a atingir mais cedo as etapas de desenvolvimento necessárias à frutificação.
Em testes de laboratório, o tecido também impediu a passagem de pulgões. Os autores destacam, porém, que a cobertura não elimina todas as pragas nem dispensa o manejo fitossanitário em uma lavoura comercial.
Origem militar e primeiros testes com repolho
A origem do Plant Armor está em pesquisas da própria NC State sobre materiais têxteis para aplicações militares. A ideia inicial era produzir um tecido que tornasse os coletes balísticos mais confortáveis e reduzisse a exposição de soldados a picadas de mosquitos.
O professor R. Michael Roe, especialista em entomologia e patologia de plantas, participou do desenvolvimento.
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A primeira publicação científica da linha de pesquisa saiu em março de 2022, na revista Agriculture, com experimentos realizados em repolho. Em pequenos canteiros acompanhados durante três meses no verão, as plantas cobertas com o tecido apresentaram crescimento vegetativo aproximadamente duas vezes mais rápido que as plantas sem cobertura. Na época, os autores ressaltaram que se tratava de uma prova de conceito, e não de uma demonstração de ganhos comerciais em escala.
Morango: colheita maior e mais precoce
A pesquisa mais recente testou a segunda geração do tecido, chamada Plant Armor Generation 2, em plantas de morango. O resultado foi um aumento de 3,56 vezes na quantidade de frutos colhidos e considerados aproveitáveis. Tanto o número quanto o peso dos frutos foram significativamente maiores nas plantas cobertas.
Diferentemente do estudo com repolho, não houve diferença na biomassa vegetativa das plantas de morango, indicando que o ganho de produção não foi acompanhado por um crescimento maior de folhas e caules. Os pesquisadores também observaram que as plantas cobertas produziram uma semana antes das plantas descobertas. A hipótese é que a elevação consistente da temperatura tenha favorecido o acúmulo de calor necessário ao desenvolvimento da cultura. O estudo não encontrou evidências de que o tecido tenha prejudicado a frutificação por provocar adaptação à sombra.
Potencial de redução de defensivos e próximos passos
Uma das aplicações potenciais do tecido é reduzir a exposição das plantas a insetos-praga e, consequentemente, a necessidade de algumas aplicações de inseticidas. Ao funcionar como barreira física, o material pode complementar estratégias de manejo integrado de pragas.
Os pesquisadores, no entanto, não demonstraram que o Plant Armor substitui integralmente os defensivos ou que reduz os custos de produção em escala comercial. Esses pontos ainda precisam ser quantificados.
A segunda geração do tecido foi patenteada pela NC State em 21 de fevereiro de 2023. A universidade licenciou a tecnologia para desenvolvimento comercial. O estudo com morangos teve apoio da North Carolina Agricultural Foundation e do programa de pesquisa do Instituto Nacional de Alimentação e Agricultura do USDA. A próxima etapa é testar o material diretamente em propriedades rurais, em diferentes regiões e culturas, para avaliar durabilidade, custos de instalação e retorno para o produtor.