Rio Grande do Sul: Reconstrução Após Cheias de 2024 – Desafios e Futuro em Debate

Cheias de 2024: Reconstrução do RS enfrenta desafios urgentes! Seminário na Ufrgs debate futuro após enchentes históricas. Especialistas, como Luís Eduardo

Reconstrução do Rio Grande do Sul: Desafios e Perspectivas Após as Cheias de 2024

O seminário “Dois anos das enchentes: Para onde vamos?”, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em 4 de maio de 2026, trouxe à tona a urgência da reconstrução do estado após as históricas cheias de 2024. O evento, promovido por Brasil de Fato RS, Sul21 e a Reitoria da Ufrgs, reuniu especialistas e representantes de movimentos sociais para discutir os impactos das enchentes e traçar um caminho para a prevenção de novos desastres extremos.

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A necessidade de preparar o estado para eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos foi o foco central da discussão.

Participantes e Debates Iniciais

A mesa de abertura do seminário contou com a presença de figuras importantes como o jornalista Luís Eduardo Gomes, da Sul21; a editora do Brasil de Fato RS, Katia Marko; a reitora da Ufrgs, Márcia Barbosa; e o superintendente do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) no estado, Nilton Bernardes.

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A leitura do poema “Ouço pingos de chuva”, de Lilian Rocha, marcou o início do evento, criando um ambiente de reflexão sobre a força da natureza e a vulnerabilidade da população.

Mudanças Climáticas e Soberania Alimentar

O primeiro painel abordou as mudanças climáticas e a soberania alimentar, com a participação do ambientalista Leonardo Melgarejo. Melgarejo destacou a capacidade de resposta da sociedade civil, especialmente durante as enchentes, quando redes de solidariedade foram mobilizadas em diferentes regiões do estado.

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Ele defendeu transparência no uso dos recursos federais destinados à reconstrução e a necessidade de monitorar a aplicação desses valores, ressaltando a importância de uma abordagem integrada que considere as dimensões sociais, políticas e econômicas da crise climática.

Impactos e Perspectivas da Reitoria da Ufrgs

A reitora Márcia Barbosa enfatizou que a emergência climática deve ser analisada em conexão com outras dimensões da sociedade. “Ela não é uma questão descorrelacionada com as demais coisas que estão acontecendo no mundo”, afirmou. Ao tratar das enchentes, destacou que os eventos extremos já eram previstos pela comunidade científica. “Aquela ‘provinha’ da enchente foi surpresa para zero cientistas climáticos.

Temos uma rede de 400 cientistas que já vinha avisando há muito tempo que teríamos seca no Norte e enchente no Sul. O país só não conseguia dizer a data e o horário”, explicou. Para ela, o problema central foi a falta de preparação. “Fomos pegos desprevenidos porque simplesmente não nos organizamos.

Existe uma cultura de não se mover enquanto o problema não está caindo na cabeça”. Durante as enchentes de 2024, a Ufrgs organizou uma rede com mais de 100 pesquisadores, em articulação com a Defesa Civil, para diagnosticar danos e propor ações, nem todas implementadas.

Entre as iniciativas, destacou a formação de professores para atuação em contextos de emergência climática. “É pela educação das crianças que se prepara toda uma comunidade”, afirmou.

Crise Climática, Segurança e a Fetraf-RS

O agricultor ecologista Luis Carlos Scapinelli, da Fetraf-RS, afirmou que a principal marca deixada pelas enchentes foi a perda da segurança, tanto no campo quanto nas cidades. “O que mais nós perdemos foi a segurança. Porque nós temos medo”. Segundo ele, a instabilidade climática passou a fazer parte da rotina, alterando práticas produtivas e decisões cotidianas. “Uma das primeiras coisas que eu faço quando acordo é olhar a previsão do tempo”.

Scapinelli destacou que os impactos recaem de forma mais intensa sobre a população de baixa renda. “Quem mais sofre? Os mais pobres. Sofrem nas cheias, no frio, no calor, e muitas vezes não têm condições de sair dos lugares onde vivem”. Ele criticou a ideia de que a resposta às tragédias pode se dar apenas pela ação individual.“Numa tragédia, precisa de prevenção, precisa de ajuda, precisa diminuir os impactos.

Isso exige um poder público comprometido”. Ao tratar das causas estruturais dos desastres, o dirigente afirmou que o modelo agrícola atual fracassou. Segundo ele, o sistema baseado na monocultura e na exportação não garante sustentabilidade ambiental nem renda para a agricultura familiar.

Como alternativa, a Fetraf-RS tem defendido práticas agroecológicas, como o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), capazes de aumentar a infiltração da água no solo e reduzir o escoamento superficial. “Do jeito que está hoje, choveu, a água vai embora quase como no asfalto, causando destruição”.

Direitos Sociais e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MTRST)

Sandra Christi, do MTRST, afirmou que o debate sobre mudanças climáticas e soberania alimentar precisa ir além da produção de alimentos e alcançar dimensões estruturais da sociedade. Segundo ela, a discussão envolve diretamente direitos básicos da população e o modelo de desenvolvimento adotado no país. “Nós não temos soberania alimentar”.

Para Christi, o Brasil ainda está distante de garantir que a sociedade decida sobre o modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos. Ela criticou o predomínio do agronegócio e a subordinação da produção às demandas do mercado internacional. “O modelo que predomina não preserva, não ouve a população e não garante o direito de se alimentar com dignidade.

A é uma questão estratégica. Se a gente fica nesse jogo internacional, não tem garantia nenhuma”. Ela também relacionou a insegurança alimentar às condições de vida e à capacidade de organização social. “A comida é elementar para o desenvolvimento físico e mental.

Sem isso, a população fica mais propensa a ser dominada”. Ao final, sintetizou a proposta do movimento. “Para nós, é a cidade segura, sustentável e solidária. Esses três ‘S’ precisam estar juntos”.

A Importância da Preparação e da Resiliência

A reitora Márcia Barbosa alertou para a possibilidade de novos eventos extremos já em 2026 e defendeu maior preparação. “Precisamos dar alertas precisos e nos preparar melhor”, disse. Ela também chamou atenção para os impactos sociais das enchentes. “Embora a criminalidade em geral tenha diminuído, a violência contra a mulher aumentou.

Isso é muito sério”.