Rhodium Group revela que China estrutura ciclo industrial autossustentável com energia elétrica

Rhodium Group aponta que a China criou um ciclo industrial autossustentável, unindo energia elétrica barata e tecnologias verdes, impactando a economia global.

08/07/2026 06:06

5 min

Bandeira da China em Pequim
Bandeira da China em Pequim

Um novo relatório do Rhodium Group, divulgado em março de 2026, traz uma análise aprofundada sobre a economia chinesa, desafiando velhos clichês que costumam acompanhar o debate sobre a ascensão do país. A pesquisa revela que a China estruturou um sistema conhecido como “electro – state”, ou Estado elétrico, cujas implicações globais ainda são difíceis de compreender para o Ocidente.

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A principal tese do relatório é simples, mas seus desdobramentos são alarmantes. Pequim uniu três pilares fundamentais em uma cadeia única e autossustentável: a geração de energia elétrica barata, o processamento de metais industriais e a fabricação de tecnologias verdes.

Cada um desses elementos atua como um catalisador para o próximo, criando um ciclo industrial que impressiona e preocupa estrategistas ocidentais.

O ciclo produtivo da China

A eletricidade abundante na China reduz os custos de refino de metais como alumínio, cobre e lítio. Esses materiais mais baratos tornam a produção de painéis solares, turbinas eólicas e baterias mais acessível. À medida que as fontes renováveis injetam ainda mais energia de baixo custo na rede elétrica, esse ciclo se retroalimenta em um redemoinho industrial observado com admiração e impotência pelo restante do mundo.

Os dados apresentados pelo Rhodium Group são impressionantes. Em 2025, a geração combinada de energia solar e eólica na China superou o consumo industrial total dos Estados Unidos. Para 2026, essa produção limpa deve ultrapassar tanto o consumo doméstico quanto o industrial americano.

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No setor de eletrificação da frota, os veículos elétricos em circulação na China já economizam cerca de 1,76 milhão de barris de petróleo por dia, protegendo cada vez mais o país contra choques geopolíticos no mercado de combustíveis fósseis.

Desde o início deste milênio, a China tem sido responsável por 60% do crescimento global no consumo de eletricidade. Mesmo com a desaceleração econômica recente devido à crise no setor imobiliário, a demanda elétrica do país continua crescendo em taxas superiores às do restante do mundo combinado.

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A dependência do carvão

Embora o relatório pinte um quadro promissor da transição para energias limpas, ele também destaca contradições importantes. A espinha dorsal desse ecossistema energético não é sustentada apenas por fontes renováveis como sol ou vento; na verdade, ela se apoia fortemente no carvão.

A China ampliou sua frota de termelétricas movidas a carvão devido à abundância desse recurso doméstico e à necessidade da metalurgia básica — aço, alumínio e cobre — que requer uma fonte estável e previsível de energia.

Essa escolha é fundamentada em questões geopolíticas e de segurança nacional. Diferentemente do petróleo e gás, cuja importação depende de rotas vulneráveis, o carvão é extraído e consumido dentro das fronteiras chinesas. Além disso, as grandes estatais controlam toda a cadeia produtiva, permitindo subsídios cruzados ao longo das etapas.

Em 2024, foram adicionados 88 gigawatts de capacidade térmica à base de carvão à rede elétrica chinesa — quantidade suficiente para abastecer um país europeu médio. Embora isso não impeça o avanço das energias renováveis (quase todo crescimento marginal da geração elétrica chinesa nos últimos anos veio dessas fontes), o carvão permanece como uma âncora essencial para garantir a continuidade das operações nas indústrias críticas.

Desafios para outras nações

A China tornou – se um modelo quase inalcançável para países que buscam estruturar suas próprias cadeias produtivas em minerais críticos, incluindo Estados Unidos e União Europeia. Os efeitos de rede do Estado elétrico chinês foram desenvolvidos ao longo das últimas décadas com suporte financeiro estatal substancial e metas rigorosas.

Segundo o Rhodium Group, a combinação dos setores energético e manufatureiro na China é difícil de replicar em outros mercados isoladamente. Para as economias ocidentais que desejam desacoplar – se desse modelo chinês, tarifas protecionistas severas serão necessárias — um custo que inevitavelmente será repassado aos consumidores finais na forma de produtos mais caros.

No Brasil, essa situação representa uma vulnerabilidade confortável porém perigosa. O país é grande exportador de minério de ferro, alumínio, nióbio e lítio; contudo, ainda importa muitos produtos manufaturados com alto valor agregado que frequentemente são produzidos na China utilizando insumos brasileiros.

A janela de oportunidade se fecha

Embora o relatório não mencione diretamente o Brasil, fica claro que a oportunidade para verticalizar essa produção está se estreitando rapidamente. O país possui vantagens significativas: uma matriz elétrica limpa e vasto potencial solar e eólico.

No entanto, isso não se traduz automaticamente em densidade industrial.

A falta não está nos recursos naturais ou em energia limpa disponível; trata – se da necessidade urgente por coordenação em políticas industriais eficazes e crédito direcionado ao longo prazo. A coragem política para definir quais apostas estratégicas devem ser feitas nas próximas décadas também é crucial.

A experiência da China mostra que seu Estado elétrico não foi construído por acaso ou apenas pelas forças do mercado; foi resultado de planejamento centralizado rigoroso e paciência histórica. O aviso está dado: o tempo para que outras nações aprendam essa lição está se esgotando.

Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.

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