Republicanos buscam 15 cadeiras democratas, enquanto mudanças do partido podem favorecer seis

As mudanças reduzem o número de distritos competitivos e podem afetar a representação de minorias; novos mapas já são considerados para as eleições de 2028.

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Congresso dos EUA

Republicanos e democratas redesenharam distritos eleitorais nos Estados Unidos antes das Midterms, as Eleições de Meio de Mandato, marcadas para 3 de novembro. Os republicanos buscam conquistar 15 vagas hoje ocupadas por democratas; as mudanças feitas pelo outro partido têm alcance menor e podem favorecer os democratas em seis cadeiras na Câmara.

A disputa envolve a divisão dos distritos que elegem os 435 integrantes da Câmara dos Deputados. Analistas alertam que o uso político dos mapas pode reduzir a competição e afetar a representação de minorias, enquanto novos desenhos já são considerados para a eleição de 2028.

Como o redesenho dos distritos pode favorecer partidos

Os estados definem como dividir seus distritos, cuja quantidade depende da população. A Califórnia, por exemplo, tem 52 cadeiras, a maior representação na Câmara. Os mapas podem mudar para acompanhar alterações populacionais apontadas pelo censo, realizado a cada dez anos.

Quando o redesenho é usado para beneficiar um partido, o processo é chamado de gerrymandering. Uma estratégia é espalhar eleitores da oposição por distritos diferentes, reduzindo sua capacidade de eleger representantes; outra é concentrar apoiadores em áreas que o partido quer controlar.

“O problema, portanto, não é qualquer mudança de mapa, mas o uso recorrente desse instrumento para limitar a competição”, afirma Fernanda Magnotta, analista de Internacional da CNN Brasil. Para ela, a prática pode enfraquecer a estabilidade e estimular uma sequência de medidas e reações entre os partidos.

O professor de Relações Internacionais da UFRJ, Fernando Brancoli, afirma que, desde 1970, apenas dois estados haviam redesenhado distritos entre censos para obter vantagem partidária. “Agora o mapa virou instrumento permanente de campanha, que pode ser revisado a cada ciclo conforme a conveniência de quem governa o estado”, diz.

Brancoli afirma que mais de uma dezena de distritos competitivos deixou de existir nesta rodada e prevê que a disputa por novos mapas continue para a eleição de 2028. “O efeito mais profundo é a quebra de uma norma”, diz. “A representação fica comprometida no sentido mais elementar: Os políticos escolhem seus eleitores antes que os eleitores escolham seus políticos”.

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Vantagem republicana pode não bastar contra onda anti-Trump

O partido de Donald Trump chega à disputa com vantagem, num cenário em que as maiorias na Câmara e no Senado tendem a ser definidas por margens estreitas. Ainda assim, analistas avaliam que a baixa popularidade de Trump pode limitar o efeito dos novos mapas.

“O redistritamento significa que para os democratas conseguirem maioria na Câmara, eles precisam colocar uma vantagem numérica em votos totais muito grande sobre os republicanos”, afirma Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais do Berea College. “Mas se vier uma onda muito forte anti-Trump isso não vai ser suficiente”.

Segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil, os republicanos têm avançado mais abertamente porque controlam o governo e o Legislativo em mais estados. Em estados governados por democratas, limites institucionais também restringem mudanças. “Os democratas passaram a última década defendendo comissões independentes e limites constitucionais ao gerrymandering, e agora esbarram nas travas que eles próprios ajudaram a erguer”, afirma Brancoli.

Poggio considera que a prática reflete a era Donald Trump. “Como tudo na era Trump, isso foi escancarado. No sentido de acabar com normas democráticas em busca de vantagem a qualquer custo. É um reflexo do que tem virado a democracia americana”, afirma.

Decisão da Suprema Corte abriu caminho para novos mapas

A disputa se intensificou após uma decisão da Suprema Corte, de maioria conservadora, que limitou a Lei dos Direitos de Voto. Com isso, ficou mais difícil para minorias contestarem mapas eleitorais por discriminação.

“Isso abre espaço para mudanças em distritos nos quais eleitores negros tinham maior capacidade de eleger seus candidatos”, afirma Fernanda Magnotta. “O impacto não deve ser medido apenas pelo número de deputados negros ou democratas: a questão central é se essas comunidades continuam tendo oportunidades efetivas de representação.”

Quem questiona um mapa por discriminação precisa provar que votos de uma minoria foram intencionalmente diluídos por questões raciais. “Como o eleitorado negro vota majoritariamente nos democratas, raça e partido se confundem, e a discriminação fica quase impossível de provar”, afirma Brancoli.

Após a decisão, Alabama, Louisiana e Tennessee, estados governados pelo Partido Republicano, adotaram novos mapas. No Texas, a proposta republicana mira cinco distritos democratas. Mais de 50 legisladores democratas deixaram o estado no ano passado para tentar impedir a votação; depois, no retorno a Austin, a Câmara foi trancada e parlamentares foram escoltados para evitar uma nova saída.

Um tribunal do Texas barrou o mapa para as Midterms, mas a Suprema Corte americana reverteu a decisão.

Sete estados aprovaram mapas favoráveis aos republicanos

Na Flórida, o novo desenho divide distritos nas áreas de Tampa e Orlando e altera regiões do sul da Flórida. Os republicanos pretendem virar quatro cadeiras democratas.

Na Carolina do Norte, as novas linhas têm como alvo um distrito representado pelo democrata Don Davis, um dos três deputados negros do estado. Ele venceu com ampla margem em 2022 e voltou a ganhar em 2024, em uma disputa acirrada após um redistritamento republicano.

O mapa foi alterado novamente em 2025, como parte do esforço do partido de Donald Trump para garantir mais vagas no Congresso.

Na Louisiana, a Suprema Corte dos EUA bloqueou um mapa que buscava criar o segundo distrito de maioria negra do estado. Depois, o governador republicano Jeff Landry adiou as primárias para permitir a elaboração de um novo mapa a tempo das Eleições de Meio de Mandato.

Os republicanos esperam virar uma cadeira na Câmara.

No Tennessee, o novo mapa dividiu o distrito de maioria negra na área de Memphis, representado por Steve Cohen. Único democrata entre os nove deputados do estado, Cohen anunciou que não tentaria a reeleição depois de 20 anos no Congresso e acusou a Corte de entregar a vaga a Donald Trump. “Eles estão tentando dar a ele mais cadeiras no Congresso por todo o país, sem levar em consideração como isso afeta uma cidade grande e importante como Memphis”, disse à CNN.

No Alabama, o mapa republicano mira a vaga de um democrata negro. Um painel de juízes bloqueou temporariamente a proposta, mas o Supremo reverteu a decisão.

Em Ohio, uma comissão bipartidária controlada pelos republicanos aprovou um novo mapa após uma série de polêmicas e mapas anulados nos últimos anos. As cadeiras dos democratas Marcy Kaptur e Greg Landsman estão na mira do Partido Republicano; já o distrito de Emilia Sykes, uma democrata negra, deve ficar ainda mais democrata.

Califórnia e Utah aprovaram mapas pró-democratas

Na Califórnia, os democratas reagiram ao redesenho do Texas. A maioria dos eleitores apoiou a substituição do mapa elaborado por uma comissão independente por outro feito pelos democratas. O partido espera ganhar mais cinco cadeiras na Câmara e neutralizar os avanços republicanos no Texas.

O governo Donald Trump processou a Califórnia, alegando que o novo desenho impulsionaria o voto dos eleitores latinos. A Justiça rejeitou o argumento, e a Suprema Corte permitiu a implementação do mapa.

Em Utah, a Justiça local determinou a elaboração de um novo mapa, que cria um distrito de inclinação democrata perto de Salt Lake City. A decisão veio após o entendimento de que a proposta republicana violaria a política anti-gerrymandering.

Justiça barrou tentativas em seis estados

As tentativas de redistritamento em Missouri, Indiana, Carolina do Sul, Virgínia, Maryland e Nova York foram barradas pela Justiça. Os mapas de Missouri, Indiana e Carolina do Sul beneficiariam os republicanos; os de Virgínia, Maryland e Nova York ajudariam os democratas a tentar conquistar cadeiras na Câmara.

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