Mesmo com séculos de história, a ponte Q’eswachaka é refeita do zero todos os anos no Peru

Nas alturas andinas do Peru, a ponte Q’eswachaka continua de pé graças a uma tradição que atravessa séculos. Quatro comunidades quéchuas se juntam todos os anos para refazê-la sobre o rio Apurímac, usando a técnica deixada pela civilização inca.
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A travessia é renovada por completo a cada ciclo e depende exclusivamente de fibras vegetais da q’oya, uma gramínea andina. Os moradores não usam nenhum material trazido de fora da região.
O que faz da ponte um caso único no Peru?
Erguida no distrito de Quehue, perto de Cusco, a Q’eswachaka é o último exemplar de pontes suspensas incas. A cada ano, os moradores refazem toda a estrutura, e é justamente essa renovação que mantém viva a identidade andina.
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A prática ganhou projeção mundial pela relevância histórica e pelo cuidado com que é conservada. Em 2013, a UNESCO reconheceu formalmente a ponte e seus rituais como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, destacando o valor dos saberes passados de geração em geração entre os quéchuas.
Como as comunidades dividem o trabalho coletivo
A obra mobiliza os povoados de Huinchiri, Chaupibanda, Choccayhua e Ccollana Quehue. As famílias se organizam no sistema chamado mink’a, em que o esforço é solidário e o benefício, compartilhado por toda a população local.
Durante três dias seguidos, os moradores se revezam em tarefas bem definidas e seguem um alto grau de coordenação. Cada grupo familiar fica com uma etapa, da colheita no campo até o trançado final, e esse arranjo reforça os laços sociais e a memória dos antepassados andinos.
De que é feita a ponte e como ela é montada
Os camponeses colhem grandes quantidades da q’oya, que cresce em abundância nas áreas montanhosas. Depois da coleta, as folhas recebem um preparo cuidadoso para ganhar flexibilidade e resistência. Homens e mulheres torcem as tranças à mão até formar as cordas chamadas q’eswa, com espessura suficiente para suportar pedestres.
A montagem segue uma ordem transmitida oralmente pelos mestres tecelões. A ponte antiga é derrubada para cair no rio, e logo em seguida os novos cabos mestres são lançados para sustentar todo o piso suspenso. Na fase final, artesãos especializados caminham pelas pontas estendidas sobre o abismo para costurar as laterais e o assoalho.
Essa amarração manual exige precisão e uma dose grande de coragem. É ela que garante a firmeza necessária para que a travessia seja usada com segurança.
Por que a tradição sobrevive há séculos
Para as comunidades, a ponte vai além de uma passagem sobre o rio. Ela simboliza a continuidade cultural dos povos andinos. A renovação vem acompanhada de cerimônias e festividades que reafirmam o respeito sagrado à terra e aproximam os vizinhos.
O conhecimento prático é transmitido diretamente de pais para filhos, o que impede que a sabedoria dos mestres incas se perca. Ao transformar plantas nativas em caminhos seguros, esses guardiões preservam a sustentabilidade ecológica e a memória ancestral da região.
Editoria:
Redação Entretenimento
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