Pneus e concreto despejados no mar em 1978 viram habitat para peixes e lagostas

Pneus e concreto despejados no mar em 1978 viram habitat para peixes e lagostas, mas projeto gerou poluição e resíduos tóxicos décadas depois.

15/09/2026 11:32

3 min

Projeto de recifes artificiais fez milhares de toneladas de pneus serem descartados no mar da Flórida
Projeto de recifes artificiais fez milhares de toneladas de pneu...

Na década de 1970, entidades de preservação ambiental começaram a despejar toneladas de pneus e blocos de concreto em várias praias dos Estados Unidos. A ideia, que parecia promissora na época, era criar habitats artificiais para a vida marinha e, de quebra, dar um destino para resíduos em terra firme.

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A prática, inspirada em conhecimentos indígenas e truques de pescadores, funcionou em alguns lugares. Em outros, no entanto, gerou problemas ambientais que persistem até hoje.

O hábito de despejar objetos no oceano é muito mais antigo. Povos das Américas às Filipinas já atiravam lixo no mar não por descuido, mas como estratégia para impedir a aproximação de invasores ou para atrair peixes. A partir dos anos 1840, pescadores dos Estados Unidos descartavam madeira e redes velhas com o mesmo objetivo: concentrar a fauna marinha para facilitar a captura.

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Décadas depois, essa lógica foi reaproveitada como uma suposta solução ecológica, especialmente em áreas sem recifes naturais. Hoje, porém, muitos pesquisadores suspeitam que esses projetos serviram, na verdade, para mascarar a poluição dos mares.

O fracasso do recife de Osborne

No início dos anos 1970, uma empresa conseguiu autorização do governo do condado de Osborne, na Flórida, para despejar cones de concreto no mar e criar recifes artificiais. Anos depois, a mesma equipe propôs ampliar o projeto, desta vez usando pneus de carro que não podiam mais circular.

A iniciativa ganhou o apoio do governo local, de engenheiros militares e até de fabricantes de pneus.

A Broward Artificial Inc. então despejou mais de dois milhões de pneus no oceano, presos apenas por hastes finas de aço. O resultado foi desastroso: os pneus se soltaram e se espalharam por mais de 15 hectares de solo marinho. Levados pelas correntes, alguns chegaram a praias distantes nos Estados Unidos.

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Em 2007, equipes do Exército americano começaram a retirar os pneus, que continuavam se movendo pelo oceano, liberando resíduos tóxicos e sem servir de abrigo para os peixes. Até novembro de 2019, dois terços da quantidade original ainda estavam no mar.

O sucesso duradouro do recife artificial de Yarmouth

Enquanto a Flórida se tornou um exemplo do que não fazer, Massachusetts conseguiu um resultado bem diferente. A costa da cidade de Yarmouth recebeu estruturas de concreto e pneus em 1978 com o objetivo de criar recifes artificiais. O projeto deu tão certo que até hoje novos materiais são despejados propositalmente para expandir a área.

Já são mais de 17 mil toneladas de objetos posicionados por equipes da Guarda Costeira dos Estados Unidos, do governo de Massachusetts e do Departamento de Recursos Naturais de Yarmouth. Mergulhadores monitoram periodicamente a interação da vida marinha com os recifes, usando câmeras para registrar a fauna local.

Mais de 18 espécies diferentes — de lagostas a tubarões — já foram flagradas vivendo ao redor das estruturas.

Autor(a):

Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.

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