Orsi, de esquerda, convida três ex-presidentes de direita para receber Leão XIV no Uruguai

Na cerimônia em Montevidéu, Leão XIV elogiou os quarenta anos ininterruptos de democracia e citou a matriz elétrica renovável uruguaia como exemplo.

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O papa Leão XIV participa de uma cerimônia de boas-vindas ao lado do presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, na Plaza de la Independencia, em Montevidéu. 06/11/2026 | Foto: Reprodução/Brasil de Fato

O Papa Leão XIV foi recebido no Uruguai, em 6 de novembro de 2026, em uma cerimônia marcada pela união institucional. Na Plaza de la Independencia, em Montevidéu, o presidente Yamandú Orsi, do campo esquerdista, convidou três ex-mandatários de direita para a solenidade.

A cerimônia também serviu de vitrine para o convívio entre forças políticas adversárias. Os discursos enfatizaram a estabilidade do país e a tolerância entre diferentes correntes.

Orsi destaca convivência entre partidos no discurso de boas-vindas

Ao dar as boas-vindas ao pontífice, Orsi falou da estabilidade geopolítica do país. Ele também citou a convivência pacífica entre os diferentes espectros políticos uruguaios.

“Recebe-o este país, Uruguai. Um país onde o governo, os cidadãos que foram presidentes por diferentes partidos políticos, junto com o nosso povo, podemos nos sentar todos juntos, em paz e com alegria, para oferecer-lhe este abraço de boas-vindas”, afirmou o presidente.

Papa elogia quarenta anos ininterruptos de democracia

Leão XIV, por sua vez, destacou a maturidade democrática do Uruguai e as conquistas socioambientais do país sul-americano. Para ele, a democracia se consolidou ao longo de um período longo, com a troca de governos decidida pelos próprios cidadãos.

“Em 2025, completaram-se quarenta anos ininterruptos de democracia no Uruguai, durante os quais, por decisão dos cidadãos, se sucederam diferentes governos. A autoridade pública encontra a sua razão de ser no serviço ao bem comum e é chamada a ser exercida no âmbito da ordem jurídica, respeitando a liberdade e a responsabilidade dos cidadãos”, declarou o pontífice.

Os discursos convergiram também na questão ambiental. Leão XIV tomou a transição energética uruguaia como exemplo para o mundo.

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“Nas últimas décadas, o Uruguai transformou profundamente a sua matriz de produção de energia elétrica, que hoje se baseia quase inteiramente em fontes renováveis. Trata-se de um resultado notável que exigiu decisões sustentadas ao longo de anos e a participação de diversos setores.”

Inteligência artificial e dignidade do trabalho entram na pauta

Presidente e pontífice também abordaram os possíveis impactos da inteligência artificial sobre o emprego. Orsi usou a encíclica Magnifica humanitas (2026) para apontar limites éticos para a tecnologia.

“O avanço tecnológico não pode ir contra o inerente à nossa condição humana; e, quando afeta negativamente o emprego, não podemos apenas pensar em termos de porcentagens, reconversão ou em chave de mera subsistência. Estamos diante de um dilema antropológico-social que o senhor identificou claramente”, apontou o presidente uruguaio.

Na mesma linha, o Papa defendeu que a dignidade humana venha antes das inovações técnicas. Ele citou ainda a encíclica Laborem Exercens (1981) ao lembrar o princípio do trabalho.

“O desenvolvimento destas tecnologias deve ampliar as capacidades humanas, facilitar as tarefas e criar possibilidades, procurando garantir que a pessoa que trabalha não seja reduzida a uma mera peça dispensável em meio ao processo produtivo”, disse o Papa.

Em seguida, ele reproduziu o ensinamento: “Convém recordar que ‘o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho’”.

A fala de Orsi terminou com a defesa da diplomacia. Para o presidente, a mediação é o caminho para o equilíbrio global, e ele fez um apelo direto por negociação.

“O multilateralismo é muito mais que uma opção, é o convite permanente para nos sentarmos à mesa e evitarmos confrontos que, a esta altura, sabemos que podem adquirir dimensões catastróficas. Para a humanidade, a paz, o diálogo e a negociação são o único caminho possível”, concluiu o presidente.

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