MP aponta Beto Louco e Primo como líderes de esquema bilionário de combustíveis

Operação Crédito Oculto cumpre mandados em sete estados e Justiça bloqueia contas e ativos da empresa Terrana.

Beto Louco (à esquerda) e Primo (à direita)

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) aponta dois empresários como líderes de uma organização criminosa investigada por fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, são considerados foragidos desde 2025.

A investigação é conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) em parceria com a Receita Federal. A ação faz parte da Operação Crédito Oculto, um desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta – feira (24.

A Justiça de São Paulo autorizou o bloqueio de contas bancárias, além do sequestro e da indisponibilidade de imóveis e ativos financeiros da empresa Terrana, dos investigados e dos fundos envolvidos no processo.

Mandados cumpridos em sete estados

A Operação Crédito Oculto cumpre mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo. As medidas judiciais, segundo a decisão, têm o objetivo de interromper as atividades investigadas e preservar recursos para um eventual ressarcimento aos cofres públicos.

De acordo com a apuração, a estrutura criminosa foi montada para viabilizar a distribuidora de combustíveis conhecida como Terrana, ocultando os verdadeiros beneficiários do negócio. A investigação aponta que a empresa era usada para abastecer uma rede de postos ligada ao grupo, que também teria recorrido a paraísos fiscais para esconder patrimônio.

Como funcionava o esquema

O MP detalhou que a operação envolvia uma complexa rede de empresas, fundos de investimento e instituições financeiras. A Usina Itajobi aparece como cotista exclusiva do Radford Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado. Também foram identificadas as empresas Berna Holdings e Branson Holdings, formalmente registradas em nome de Paulo Nárcelio Simões do Amaral, com capital social de R 1 mil cada e endereço em Pinheiros, na zona Oeste de São Paulo.

A investigação aponta a emissão de duas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) destinadas ao Banco Genial, uma de R 60,5 milhões e outra de R 99,8 milhões. Os recursos teriam sido usados para comprar o Fundo Derby 44 (hoje Wels) e a Tramp Oil (Brasil) Ltda. (atual Branson Oil), empresa que detém 100% das cotas da Terrana.

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Outra empresa citada é a 7Seven Apoio e Serviços Administrativos, que teria sido usada para movimentar recursos por meio de “contas bolsão” e pagar funcionários da distribuidora.

Envolvimento de executivos do mercado financeiro

O MPSP também investiga a participação de representantes do mercado financeiro. Entre eles está Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex – sócio e diretor do Banco Genial, e seus irmãos André e Bruno Tupinambá. O grupo é acusado de estruturar garantias bancárias e financiar as operações.

Outro alvo é Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, proprietário da Entre Investimentos e do Fundo Celebration. Segundo o Gaeco, empresas ligadas a Freixo funcionavam como “contas de passagem” para movimentar dezenas de milhões de reais destinados ao Fundo Radford e à Usina Itajobi.

A Credihome SCD, atualmente Octa, adquirida pelo Grupo Entre, também é citada. A instituição teria aberto uma conta para a Usina Itajobi um dia antes da emissão das CCBs.

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) registrou movimentações atípicas envolvendo Freixo, com R 71 milhões em créditos e R 128 milhões em débitos. Também foram identificados repasses superiores a R 1,2 bilhão em empresas de consultoria ligadas ao grupo.

Plano para apagar rastros

Mensagens extraídas de celulares apreendidos revelaram a reação do grupo após a primeira fase da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025.

Em 1º de setembro de 2025, o contador teria elaborado um plano para cortar os vínculos formais entre a Terrana e Beto Louco e Primo. Paulo Nárcelio sugeriu, em mensagem, a transferência da equipe para um escritório virtual. Na mesma data, Gunar listou nove pendências estratégicas para “apagar rastros e cortar a solidariedade jurídica” entre a Terrana e as empresas de fachada.

A investigação aponta ainda a orientação para retirar as marcas da Terrana das fachadas dos postos e apresentar a empresa como parte de um “programa de franquias em revisão”.

Delação rejeitada e posicionamento das defesas

Segundo o MPSP, Beto Louco e Primo tentaram negociar acordos de colaboração premiada com o Ministério Público paulista. A proposta foi rejeitada pelo procurador – geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa. A recusa, conforme o MP, se deve à avaliação de que os empresários omitiram informações sobre esquemas de lavagem de dinheiro e apresentaram inconsistências sobre possíveis relações com agentes públicos e políticos.

Procurada, a defesa de Antonio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, informou que não irá se manifestar. O Banco Genial, em nota, afirmou que Humberto Tupinambá não atua mais na instituição desde maio de 2026, quando foi destituído. O banco disse ter fornecido todas as informações ao Gaeco, realizado comunicações ao Coaf e adotado medidas adicionais de governança e controle, incluindo a renúncia à administração do Fundo Radford.

A CNN Brasil também busca contato com a defesa dos outros citados e com a Entre Investimentos.