Maria Paula Curado: A médica que transformou a resposta ao acidente de Goiânia em inovação e

Transformações na vida da médica Maria Paula Curado
No mês de setembro de 1987, a rotina da médica cirurgiã Maria Paula Curado sofreu uma mudança significativa. Ao perceber a gravidade da situação em Goiânia, ela não hesitou em se oferecer como voluntária na Secretaria de Saúde, enfrentando uma crise sem precedentes.
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Atualmente, como pesquisadora no A.C.Camargo Cancer Center, Curado relembra que a desinformação foi um dos principais obstáculos. “Quando o acidente aconteceu, as pessoas não tinham conhecimento sobre o césio-137 ou sobre radiação”, afirma.
Consequências do acidente
Segundo a médica, a falta de informação não apenas resultou em vítimas físicas, mas também gerou um estigma social intenso. “Naquele período, enfrentamos muita discriminação. Aqueles que residiam na área afetada eram marginalizados. Alguns colegas relataram que precisavam usar placas falsas em seus carros para viajar para outros estados”, recorda.
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Inovações diante da emergência
A ausência de precedentes levou a equipe liderada por Curado a desenvolver soluções inovadoras. Enquanto os protocolos da Agência Internacional de Energia Atômica eram voltados para acidentes isolados, a situação em Goiânia demandava uma resposta para um grande número de pessoas.
Foi necessário criar um fluxo de atendimento e monitoramento a longo prazo a partir do zero.
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“Precisávamos estabelecer um protocolo de acompanhamento para essas pessoas, pois não havia nada semelhante. A maioria dos acidentes envolve uma ou duas pessoas, mas com mais de 200, não existia um modelo”, explica. Essa estrutura não só salvou vidas, mas também impulsionou o uso de medicamentos essenciais, como o granulokine. “Atualmente, todo paciente em quimioterapia que apresenta baixa na contagem de sangue utiliza granulokine.
O uso desse medicamento foi promovido a partir da experiência adquirida durante o acidente no Brasil”, destaca Curado.
Contribuições para a OMS
A rigorosa supervisão das vítimas possibilitou que a Dra. Maria Paula estruturasse o Registro de Câncer de Base Populacional de Goiânia, um trabalho que chamou a atenção internacional. “Eles ficaram surpresos e questionaram como consegui estruturar esse trabalho – e a resposta foi simples: fazendo!”, conta a médica.
Esse reconhecimento foi o primeiro passo para que os dados do Centro-Oeste brasileiro fossem integrados às publicações da OMS, levando Curado a uma transição de carreira da cirurgia para a epidemiologia global, com atuação em projetos na África e na Ásia.
O papel do entretenimento e a educação em saúde
Com o recente ressurgimento do tema em produções audiovisuais, a médica vê uma oportunidade para o que denomina “educação em saúde”. Para ela, é fundamental ir além da curiosidade despertada por séries de ficção. “Espero que isso sirva como um estímulo para que a nova geração comece a entender o que é uma exposição radioativa e quais são os riscos.
Precisamos fornecer informações consistentes para que as pessoas saibam como se proteger”, alerta.
Atualmente, a Dra. Maria Paula Curado continua ativa no A.C.Camargo, coordenando estudos sobre câncer em jovens adultos e investigando as causas da doença em diversas regiões do Brasil. “Após toda essa experiência, percebi que precisava continuar estudando os efeitos e as exposições que podem levar ao câncer.
Assim, passei a desenvolver vários estudos multicêntricos, envolvendo diferentes centros no Brasil. Goiânia está sempre incluída: tudo o que faço, busco contemplar a cidade, junto com outras regiões, como Belém e São Paulo”, conclui.
Autor(a):
Ana Carolina Braga
Ana Carolina é engenheira de software e jornalista especializada em tecnologia. Ela traduz conceitos complexos em conteúdos acessíveis e instigantes. Ana também cobre tendências em startups, inteligência artificial e segurança cibernética, unindo seu amor pela escrita e pelo mundo digital.



