Maílson sobre corte da Selic: “O dólar vai pras alturas: 6, 7 reais”

Ex-ministro da Fazenda critica a proposta de André Lara Resende de coordenar política fiscal e monetária.

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Remédio amargo: Copom: Banco Central elevou mais uma vez a taxa de juros para conter a inflação que acelera | Foto: Reprodução/Veja

O ex-ministro da Fazenda e colunista de VEJA Maílson da Nóbrega afirmou que uma redução artificial da taxa básica de juros poderia provocar fuga de capitais e empurrar o dólar para a faixa de 6 a 7 reais. Ele falou em entrevista à apresentadora Marcela Rahal, no programa VEJA em Foco.

Na conversa, Maílson criticou a proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real. Lara Resende sugere mudar a forma como a política fiscal e a monetária são coordenadas, para baixar a Selic aos poucos.

Maílson vê risco para a economia e para o dólar

Para o ex-ministro, o anúncio de uma medida desse tipo levaria investidores a retirar dinheiro do país. “Quando for anunciar essa medida, haverá uma fuga de capitais. Então, a procura pelo dólar vai se intensificar. O dólar vai pras alturas: 6, 7 reais”, afirmou Maílson.

Ele reconheceu a importância histórica de Lara Resende, sobretudo pelo papel que teve na criação do Plano Real, ao lado de Pérsio Arida. Ainda assim, disse que a proposta atual não tem respaldo na experiência econômica, nem internacional nem brasileira.

Lara Resende argumenta que os juros altos pesam bastante na dívida pública. A ideia inclui a criação de um Comitê de Finanças Fiscal e Monetário, que definiria diretrizes para as duas áreas. Maílson enxerga nisso uma interferência nas atribuições do Congresso Nacional.

“Significaria dar ordens, digamos assim, na prática, ao Congresso, para aprovar o orçamento de acordo com o que esse conselho”, afirmou. Para ele, um mecanismo assim é institucionalmente inaceitável.

Lembrança de Dilma e o peso das reservas

Maílson também duvidou que o Banco Central consiga cortar os juros por decisão voluntarista, sem levar em conta as expectativas do mercado. Ele citou o governo Dilma Rousseff, quando, na visão dele, a pressão presidencial levou à queda da Selic num momento em que o mercado esperava alta dos juros.

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“E qual foi o efeito? A inflação voltou, a situação piorou. Isso contribuiu para o impeachment da presidente Dilma”, disse. Na avaliação dele, repetir algo parecido seria uma temeridade.

Pela explicação de Maílson sobre a proposta, o Banco Central poderia usar as reservas internacionais para vender dólares e conter a pressão cambial. Ele rejeita essa saída. Lembrou que o país tem cerca de 350 bilhões de dólares em reservas, que servem de proteção contra crises externas.

“Usar essa reserva como uma forma de testar uma ideia que não foi aplicada em canto nenhum do mundo, não tem o apoio da comunidade acadêmica internacional”, criticou. Maílson acrescentou que a proposta é discutida há mais de dez anos e que nenhum banco central a adotou até agora.

Maílson defende manter a Selic em 13,75% ao ano

Ao comentar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), Maílson defendeu que o Banco Central mantenha a Selic em 13,75% ao ano. Para ele, as dúvidas sobre a política fiscal do próximo governo exigem cautela, além de seus possíveis efeitos sobre a inflação.

Ele lembrou que o dólar subiu de pouco mais de 5 reais para 5,45 reais após as eleições, o que mostra, em sua leitura, desconfiança do mercado com o ajuste das contas públicas. Também citou a expectativa de alta nos custos de mão de obra, que poderia pressionar os preços nos meses seguintes.

“Diante de tantas confusões e incertezas, eu acho que o melhor que o Banco Central fará é preservar a sua credibilidade”, afirmou. Para Maílson, manter a taxa básica em 13,75% ao ano é, neste momento, a decisão mais razoável.

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