Mães sofrem por perdas fetais anualmente no Brasil

A dor da maternidade e paternidade, muitas vezes invisível para quem está fora do ciclo gravídico, não é causada apenas pelo evento em si; ela revela uma porta que já estava trancada há muito tempo. O luto pelas perdas na barriga mostra algo com clareza: a dificuldade de encontrar permissão social para contar essa história complexa.
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O termo “luto pela perda gestacional” define o sentimento profundo causado por perder um filho durante qualquer fase — seja num aborto espontâneo nas primeiras semanas ou após o nascimento.
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Entendendo os laços antes mesmo da chegada No Brasil, esse tipo de ocorrência acontece mais vezes do que se imagina e é crucial entender sua dimensão estatística. Estima se anualmente cerca de 28 mil óbitos fetais apenas no país, sem sequer contabilizar todos os casos de abortos spontâneos em fases muito precoces, muitas vezes não registrados como perdas oficiais.
É fundamental desmistificar a ideia de um tempo mínimo para sentir essa dor: perder com oito semanas tem intensidade igual à perda vivenciada após trinta. A força desse luto nunca acompanha o tamanho da barriga; ela reflete diretamente o quão forte foi o vínculo que já estava sendo construído entre pais e filhoa.
Psicologicamente falando, existe até mesmo uma categoria chamada “luto não reconhecido”, voltado justamente aos sentimentos por algo ou alguém cuja existência ainda é vista pela sociedade como incerta. Essa falta de reconhecimento faz mães e pais se sentirem profundamente isolados em sua experiência.
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Os especialistas também apontam um conceito importante na psicologia do luto: a relação com quem perdemos continua existindo sob outra forma quando a presença física cessa.
Impacto Diferenciado nas Famílias. Por trás da perda gestacional geralmente há pelo menos quatro histórias acontecendo simultaneamente — mãe, pai, casal e os filhos já existentes —, mas raramente todas são vistas abertamente no processo terapêutico. A mãe carrega o peso dessa dor de maneira mais visceral.
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Ela é quem sente as mudanças físicas internas ao corpo após semanas que foram marcadas por movimentos; contudo, frequentemente ouve frases como “logo você engravida de novo”, minimizando seu sofrimento. Nesses momentos, a crença dolorosa pode surgir: “eu não deveria estar tão mal”, dando origem à culpa quando ninguém oferece uma explicação biológica para algo fora do controle da pessoa.
O Papel e os Desafios dos Pais. Para o pai, vivenciar essa perda ocorre em um campo diferente. Enquanto o luto materno tem manifestação física no útero, ele assume muitas vezes tarefas práticas — organizar trâmites burocráticos e manter a rotina familiar —, enquanto tenta conter suas próprias lágrimas.
A pressão interna mais comum é ter que ser forte constantemente; embora isso proteja momentaneamente, isola na verdade porque aquele tipo de dor não desaparece só por falta de saída.
O cuidado com esse reconhecimento paterno nunca deve ser visto como mera cortesia: faz parte do processo curativo.
Vínculo Pós Perda e os Filhos Subsequentes. Para o casal, engravidar novamente após uma perda traz consigo um medo constante – “e se acontecer de novo?”. Esse alerta emocional vem da memória física processando a experiência anterior. Esse receio diminui quando há algum espaço para reconhecer formalmente aquela perca que aconteceu antes; ele tende a persistir mais intensamente em famílias onde houve sinais anteriores, seja outro aborto ou ameaça real à gestação atual.
O nome dado ao luto ajuda nesse longo caminho rumo à confiança. Há também quem tenha nascido depois dessa tragédia: os chamados “bebês arco íris”. Eles podem crescer carregando inconscientemente o chamado Bloqueio de Substituição— um peso não próprio e uma sensação sutil de precisar “trazer alegria” para preencher aquele vazio familiar.
A psicologia transgeracional explica esse fenômeno doloroso quando aquilo que nunca foi dito dentro da família acaba se transmitindo em forma de sintoma, comportamento repetitivo ou angústia sem origem clara.
Caminhos Práticos para Nomear a Dor. O reconhecimento do luto pode ser feito por pequenos rituais com grande força emocional. Esses gestos dão lugar físico àquela mágoa que até então só existia na mente.
Para quem perdeu o filhoa), dar um nome— seja ele simb
Autor(a):
Júlia Mendes
Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.



