Mãe iemenita ganha 1.500 riais (US$ 0,96) por dia com plástico e diz que não basta para sete filhos
Duas mães solo que fugiram de seu vilarejo há três semanas lutam para manter os filhos alimentados e aquecidos em Taiz, cidade iemenita sitiada. Elas moram em um prédio danificado e sobrevivem da venda de garrafas plásticas.
Taiz concentra cerca de metade das 300 mil pessoas deslocadas em todo o Iêmen pelos confrontos mais recentes, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas). Desde 3 de outubro, a cidade vive praticamente cercada, depois que os combates entre o governo, apoiado pela Arábia Saudita, e os houthis, alinhados ao Irã, se intensificaram.
Na prática, a violência barrou a chegada de ajuda humanitária e impediu que civis deixassem a região.
Famílias dormiram na rua após fuga a pé
Fatima Abdullah Qassem contou que as famílias deixaram o vilarejo a pé, no meio da noite, quando os combates chegaram a al-Sayahi, na região de al-Dhabab, a oeste de Taiz. Segundo ela, a família passou dois dias ao relento, já que o prédio danificado onde vive hoje estava em condições muito precárias.
“O prédio é aberto, veja, é aberto, com lonas improvisadas. Colocamos lonas, e está congelante. Não temos cobertores, não temos nada, juro por Deus”, disse ela, apontando para o espaço improvisado onde a família se abriga.
Qassem é mãe de oito filhos e está separada do marido. Em 2017, perdeu um dos filhos após a explosão de uma mina terrestre.
Venda de garrafas plásticas não cobre a comida
Qassem e Intizar Ahmed Saeed costumavam vender verduras. Agora, recolhem e vendem garrafas plásticas para sustentar as crianças. Saeed é viúva e mãe de sete filhos.
Ela afirmou que o dinheiro obtido com a atividade mal dá para alimentar as crianças. “Minha vida é uma luta todos os dias, por Deus, uma luta. Estou dizendo, trabalho por 1.500 riais (US$ 0,96), e não é suficiente. Saio pedindo batatas, tomates, pimentas… O homem da casa (referindo-se ao filho dela) tem 15 anos e, atualmente, não há trabalho”, afirmou Saeed.
Combates avançam e ameaçam rota estratégica no Mar Vermelho
Agências de ajuda humanitária avisam que a nova onda de violência no Iêmen piora depressa a situação de um país que já convive com uma das piores crises humanitárias do mundo. Os confrontos entre os houthis e a coalizão liderada pela Arábia Saudita, que apoia o governo iemenita, ganharam força nas últimas semanas.
Com isso, abriu-se uma nova frente, instável e perigosa, dentro do conflito mais amplo que envolve EUA, Israel e Irã.
No mês passado, as forças houthis avançaram rumo ao Estreito de Bab el-Mandeb, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. A passagem fica do lado oposto ao Estreito de Ormuz, do outro lado da Península Arábica. Desde então, as forças do governo tentam recuperar territórios na costa do Mar Vermelho, movimento que pode reduzir o controle houthi sobre esse ponto crucial de passagem.
Ao mesmo tempo, a coalizão ampliou os ataques a posições houthis, como resposta à escalada de ofensivas do grupo contra a Arábia Saudita. A volta dos combates encerrou a trégua mediada pela ONU em 2022, que havia contido, em grande parte, os ataques de maior escala.
O conflito começou depois que os houthis expulsaram o governo de Sanaa, em 2014.
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