Reeleição de Lula: tarifaço de Trump pode seguir pesando nas exportações de empresas brasileiras

Sobretaxas de 37,5% atingem parte das exportações desde julho, e o novo mandato também terá de equilibrar a disputa entre EUA e China por minerais críticos.

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Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Branca, durante encontro no dia 7 de maio.

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixa para o próximo mandato três frentes que pesam na política externa: a relação com os Estados Unidos, a disputa global por minerais críticos e a integração sul-americana.

A estratégia de aproximação com o Sul Global e o fortalecimento dos BRICS devem continuar, mas o governo terá de lidar com a pressão comercial e geopolítica do governo de Donald Trump e transformar a diplomacia em ganhos econômicos concretos.

Tarifas americanas são o primeiro teste

Uma das prioridades imediatas é negociar a redução das tarifas que os Estados Unidos impõem a produtos brasileiros. Desde julho, parte das exportações do país sofre sobretaxas de 37,5%, o que reduz a competitividade das empresas brasileiras no mercado americano.

Para Diego Pautasso, doutor em Ciência Política pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a postura de Washington é o maior desafio externo do próximo governo. Ele classifica a atuação americana como “uma política externa abertamente coercitiva, tanto do ponto de vista comercial, com tarifaços generalizados para o mundo todo, mas também com uma política de coerção em vários âmbitos e contra vários países”.

Já Roberto Goulart Menezes, professor titular de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília), acredita que a reeleição preserva as diretrizes diplomáticas atuais, mas cobra habilidade na relação bilateral com Washington. “Será um período bem difícil para a política externa brasileira, para as relações do Brasil com os Estados Unidos, se a atuação de Donald Trump no cenário internacional se basear pela agressividade”, afirmou.

Minerais críticos entram no centro da disputa

Outro desafio é equilibrar a relação com a China e com os Estados Unidos, que disputam o controle de cadeias produtivas estratégicas, sobretudo de minerais críticos e terras raras. O Brasil tem reservas relevantes desses recursos, usados na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e tecnologias avançadas.

Apesar do potencial geológico, o país ainda tem capacidade restrita para separar, refinar e produzir componentes industriais, justamente as etapas que concentram mais valor. Em setembro, o governo sancionou a PNMCE (Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos), que criou instrumentos para estimular o processamento desses minerais no território nacional e instituiu o CIMCE (Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos).

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A nova lei também cria margem para acordos de agregação de valor atrelados às vendas externas de minerais estratégicos, com regras a serem detalhadas em norma própria.

Para Rinaldo Mancin, consultor especializado em mineração e minerais críticos e ex-diretor do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), o grande teste é converter o interesse estrangeiro pelos recursos brasileiros em investimentos que fortaleçam a indústria local. “Em um novo governo Lula, a tendência seria procurar conciliar a diversificação de parceiros, a atuação nos BRICS e uma política de desenvolvimento industrial. O desafio seria transformar essa orientação em projetos viáveis, com investimento, acesso à tecnologia e resultados mensuráveis”, afirma.

Na avaliação de Mancin, a aproximação com os BRICS e a diversificação de parceiros abrem alternativas de negociação, mas também expõem o Brasil a pressões de Washington para restringir a presença chinesa em cadeias estratégicas. “A pressão a resistir seria a de aderir a arranjos que assegurem o fornecimento de recursos brasileiros, mas deixem as etapas tecnológicas e industriais mais valiosas no exterior”, ressalta.

O consultor lembra ainda que ter reservas minerais não garante protagonismo internacional. Para atrair projetos de processamento e transformação industrial, o país precisará de infraestrutura, capacidade tecnológica e segurança jurídica.

Integração sul-americana enfrenta fragmentação política

Na América do Sul, Lula terá de reconstruir mecanismos de integração regional em um quadro em que vários governos se aproximaram da administração Trump. Entre as iniciativas americanas está o Escudo das Américas, coalizão criada em março para ampliar a cooperação contra o crime organizado e a influência de potências externas no continente.

Pautasso avalia que a fragmentação política da região travou os esforços de integração do governo brasileiro nos últimos anos. Segundo ele, Lula tentou retomar a agenda logo no início do mandato, com a Cúpula de Brasília, mas não avançou como esperado. “Foi um movimento que o governo Lula fez logo no início com a Cúpula de Brasília, mas em função da fragmentação política da região, não conseguiu avançar como deveria”, avalia.

Acordo com a União Europeia exige adaptação da indústria

Consolidar os ganhos do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia também está na lista. A aplicação provisória começou em maio de 2026, amplia oportunidades de comércio e obriga setores produtivos a se ajustar a novas condições de concorrência.

Na agenda ambiental, Goulart Menezes acredita que o governo deve manter a política climática como vitrine internacional e ampliar a presença do país em negociações e mecanismos de financiamento da transição energética. Para ele, o meio ambiente “certamente seguirá sendo uma das principais pautas para abrir portas para o Brasil internacionalmente e o Brasil manter uma posição de liderança na agenda ambiental climática”.

Goulart também aponta continuidade nas iniciativas de combate à fome, no fortalecimento dos BRICS e no aprofundamento das relações com a China. Para os especialistas ouvidos, o maior desafio será conciliar a autonomia diplomática defendida pelo governo com resultados econômicos concretos, num cenário de disputa entre grandes potências e reorganização das cadeias globais de produção.

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