Íyá Sandrali Analisa Avanço das Comunidades Religiosas no RS

Ìyá Sandrali destaca avanços das comunidades religiosas no RS enquanto aponta necessidade urgente de políticas públicas efetivas.

02/07/2026 17:35

4 min

Ìyá Sandrali Bueno é liderança religiosa, escritora e militante do movimento negro no Rio Grande do Sul
Ìyá Sandrali Bueno é liderança religiosa, escritora e militante ...

A luta dos povos de terreiro por liberdade religiosa no Rio Grande do Sul transcendeu a defesa simples da fé e se consolidou como uma ampla reivindicação pela memória, cultura e direitos das populações negras na região.

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Neste contexto histórico complexo, Ìyá Sandrali — psicóloga, escritora e líder religioso que coordena o Movimento Negro Unificado em nível estadual —, analisa os avanços alcançados pelas comunidades tradicionais africanas. Para ela, é fundamental entender que conquistas simbólicas precisam ser acompanhadas urgentemente por políticas públicas materiais para serem consideradas completas.

O terreiro: reconstruindo a África no Rio Grande do Sul

Segundo Iyá Sandrali, cada comunidade de matriz africana funciona como um local onde “a própria África se reconfigura”, mesmo estando na diáspora brasileira. Ela explica que esse processo não busca uma reprodução estática ou idealizada das culturas continentais; trata – se sim de uma construção afrodiaspórica complexa e viva.

As populações foram arrancadas violentamente dos seus territórios originais — separando famílias, línguas e formas tradicionais —, mas trouxeram consigo vastos conhecimentos espirituais. Esses saberes incluem tecnologias para a compreensão da natureza, modos comunitários de cuidado e valores civilizatórios transmitidos por gerações em sucessão oral.

A visibilidade no espaço público como conquista histórica

O aumento do protagonismo desses terreiros é notável até mesmo na cidade de Pelotas, que tem registrado maior presença dessas religiões nas ruas. Para Sandrali, quando os rituais são realizados publicamente ou as celebrações ocupam o Mercado Público — um local central à circulação social —, isso demonstra algo muito mais profundo: afirmação cultural coletiva.

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Esse tipo de manifestação pública prova que a população negra não foi apenas uma força braçal para construir cidades; ela também construiu espiritualidade e laços comunitários próprios. Os espaços dos povos de matriz africana funcionam como centros multifuncionais – locais de formação, acolhimento, cura, educação ambiental –, devolvendo memória sistematicamente silenciada ao município em questão.

A presença demarcada no centro urbano é vista por Sandrali como “uma conquista histórica”. Ela argumenta ainda que o espaço público deve ser um local democrático onde todas as tradições religiosas podem se expressar livremente, desde que os direitos fundamentais sejam respeitados pelo Estado Laico brasileiro.

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Racismo religioso e estratégias para a luta pelos direitos

Mesmo com avanços na visibilidade cultural desses povos de terreiro — incluindo iniciativas locais —, Ìyá Sandrali alerta sobre persistentes desafios. O racismo contra essas manifestações não aparece sempre em agressões físicas diretas; muitas vezes ele é mais sutil ou institucionalizado.

Uma das formas recorrentes de discriminação envolve “a demonização” dos rituais, divindades e símbolos africanos. Além disso, há conflitos vizinhança onde qualquer som produzido pelo terreiro pode ser tratado como perturbação sonora ilegalmente naturalizada para outras tradições religiosas.

A violência também se apresenta no âmbito legal: as lideranças têm dificuldade até mesmo em registrar ocorrências por conta do despreparo desses fatos serem classificados genericamente apenas como intolerância religiosa sem reconhecer a dimensão racial envolvida.

A necessidade de políticas públicas permanentes. Para que os avanços sejam duradouros, é preciso ir além da mera tolerância cultural ou espetáculo turístico. Sandrali enfatiza o desejo das comunidades não só pelo reconhecimento simbólico — mas pela garantia efetiva dos direitos sobre suas próprias representações e decisões internas.

Os povos precisam deixar de ser vistos somente durante datas comemorativas para passarem a participar permanentemente nas formulações governamentais relativas à saúde, educação, cultura, segurança pública e planejamento urbano do município no qual vivem. É por isso que ela reforça: “Reconhecimento simbólico sem proteção material ainda é um reconhecimento incompleto”.

Fortalecendo redes comunitárias

Diante desse cenário complexo — onde o mito persiste em tentar apagar historicamente a presença negra na região Sul —, as comunidades têm construído diversas estratégias de resistência. A própria continuidade dos terreiros já representa uma vitória contra séculos de perseguição.

Além disso, há grande investimento nas articulações coletivas e no fortalecimento das conexões entre diferentes associações, fóruns do movimento negro ou até mesmo outros conselhos locais. As lideranças também estão buscando formação jurídica para saber como registrar corretamente os fatos racistas que acontecem diariamente nos territórios tradicionaisA ocupação ativa desses espaços públicos — seja por meio de caminhadas abertas em feiras livres, procissões públicas ou seminários —, é fundamental porque ajuda a romper o silêncio social.

A educação se torna uma ferramenta central nesse processo: dialogar com escolas e universidades sobre história afro – brasileira mostra um caminho indispensável contra qualquer tipo de preconceito.

Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.

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