Infância negra: como o racismo estrutural impacta descobertas e autoestima infantil

A infância negra enfrenta desafios únicos devido ao racismo estrutural. Janine Rodrigues destaca a importância da educação antirracista e da representatividade.

02/06/2026 19:56

4 min

Infância negra: como o racismo estrutural impacta descobertas e autoestima infantil
(Imagem de reprodução da internet).

A infância e as descobertas

A infância é, por definição, um período repleto de descobertas. Contudo, para as crianças negras, as barreiras impostas pelo racismo estrutural frequentemente encurtam essa fase de leveza, resultando em um estado de alerta e trauma desde cedo. Comentários preconceituosos disfarçados de “piadas”, comuns no ambiente escolar, impactam a autoestima e desumanizam corpos que deveriam estar apenas em desenvolvimento.

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Nesse contexto, a literatura infantil e a educação antirracista tornam-se não apenas opções pedagógicas, mas ferramentas essenciais de reparação e acolhimento.

Desafios da infância negra

Para a escritora e educadora antirracista Janine Rodrigues, 44 anos, a necessidade de uma abordagem antirracista nas escolas vai além de simplesmente identificar as questões estruturais geradas pela discriminação. Trata-se de devolver a humanidade a corpos que são constantemente desumanizados pelo preconceito.

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Nesse amplo debate, a autora destaca o fenômeno denominado “descriançar”, no qual a criança negra passa a tomar decisões de maneira hipervigilante e adultizada para evitar conflitos ou rejeição.

Recentemente, Janine lançou o livro “Por Que Não Existe Flor Preta”, que entrelaça botânica, história e conscientização. Ela afirma que “a educação antirracista não se limita a expor as mazelas e dores, mas também a contribuir com repertórios da história e as contribuições do povo negro para a sociedade.

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O racismo, entre outras coisas, desumaniza”, explica.

A importância da representatividade

A educadora alerta sobre a superficialidade na representação de personagens negros, defendendo que a verdadeira representatividade deve ter profundidade pedagógica. Para Janine, é fundamental romper com estereótipos de submissão e com o mito da perfeição inalcançável. “Estar sempre no lugar de quem nunca erra, nunca falha e não apresenta fragilidades é desumano”, afirma.

Assim, ela defende que o foco deve ser o direito à humanidade, assegurando que “crianças negras e brancas têm o direito de ver pessoas negras em espaços onde é possível ser gente”.

Literatura e botânica contra o racismo

No contexto do racismo nas salas de aula, Janine lançou o livro “Por Que Não Existe Flor Preta”, que combina botânica, história e conscientização. O livro infantil, ilustrado por Ann Muanaw, quebra padrões do mercado ao ser publicado totalmente em preto e branco.

Segundo a autora, essa escolha estética visa ressignificar a cor preta, historicamente associada à negatividade, transformando-a em um símbolo de beleza e força.

“Muitas crianças relataram que estavam sofrendo racismo e ouvindo ‘piadas’ relacionadas a essa pergunta, que em várias escolas se tornou uma espécie de charada, com a resposta ‘porque preto não é flor que se cheire’. Ao ouvirem isso, as crianças negras sofriam”, conta.

Além do resgate lúdico, o livro traz o simbolismo histórico da Camélia, flor que foi um importante símbolo do movimento abolicionista no Brasil, e conta com a colaboração de um biólogo para explicar fenômenos naturais aos leitores.

Enfrentando o racismo escolar

Quando questionada sobre como os professores devem agir diante de episódios de discriminação em sala de aula, Janine critica a ideia de “respostas prontas” ou de projetos temporários que funcionam apenas sob demanda. “Ignorar o assunto ou deixar para depois também é um problema.

O senso de urgência deve coexistir com um trabalho contínuo. Muitas escolas ainda operam sob demanda; para cada ato racista, uma roda de conversa, quase como um cardápio, o que não é eficaz, pois precisamos agir todos os dias”, explica a autora.

Para a especialista, a resolução de conflitos raciais exige sensibilidade no acolhimento e compreensão de que o impacto do trauma é desproporcional entre os envolvidos. Ela alerta que intervenções pedagógicas superficiais, como exigir um abraço forçado de desculpas, ignoram o tempo necessário para a elaboração da vítima. “Talvez a criança que cometeu o ato racista esqueça com o tempo.

O mundo não a lembrará diariamente de que ela é branca. Mas a criança negra é constantemente lembrada de sua cor, e a cada lembrança, reviverá aquele dia”, observa.

Papel das famílias e vigilância na era digital

Janine também destaca que o sucesso de uma rede de apoio antirracista depende do engajamento das famílias. Ela sugere que as escolas utilizem a literatura como uma ponte para debates abertos com os pais, desarmando defesas para que preconceitos enraizados em casa possam ser reconhecidos e combatidos. “O que não é reconhecido não pode ser mudado”, enfatiza.

A vigilância deve ser ainda mais intensa na era digital. Com o acesso massivo de crianças a telas e conteúdos sem mediação, o racismo tem se disfarçado de maneira sutil, manifestando-se no que se chama de racismo recreativo. “Nem toda violência tem uma aparência assustadora; às vezes, ela se apresenta de forma sedutora e se normaliza.

O que precisamos entender é que a educação antirracista é um conjunto de ações em que todos somos responsáveis: em casa, na escola, nas mídias e no trabalho”, conclui.

Autor(a):

Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.

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