Indústria da moda intensifica pressão sobre recursos hídricos e gera polêmica global

A indústria da moda intensifica a pressão sobre os recursos hídricos, gerando poluição e desafios econômicos. Descubra como isso afeta o futuro do setor!

6 min de leitura

(Imagem de reprodução da internet).

A pressão da indústria da moda sobre os recursos hídricos

A indústria da moda, uma das cadeias produtivas mais significativas da economia global e latino-americana, tem intensificado a pressão sobre os recursos hídricos em diversas fases da produção, desde o cultivo das matérias-primas até o acabamento das peças.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

De acordo com estimativas da ONU, esse setor é responsável por aproximadamente 20% da poluição global da água doce, um dado que tem levado empresas e especialistas a reconsiderar seus modelos de produção. O assunto se torna ainda mais relevante em um contexto onde a escassez de água se estabelece como um dos principais desafios econômicos e ambientais do século XXI.

Neste cenário, a gestão eficiente da água é vista não apenas como uma questão ambiental, mas também como um fator estratégico para a competitividade industrial. Na América Latina, onde o setor têxtil é crucial para a geração de emprego e renda, a implementação de soluções que minimizem a pegada hídrica começa a se firmar como parte da agenda de transformação da cadeia produtiva.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O consumo de água inicia na matéria-prima

O impacto hídrico da indústria da moda começa na produção de fibras. O algodão, uma das matérias-primas mais utilizadas no mundo, consome uma quantidade significativa de água. Para produzir um quilo de algodão, são necessários entre 7.000 e 29.000 litros de água.

Esse volume é consideravelmente maior do que o utilizado para culturas alimentares, como cereais, que demandam cerca de 1.000 litros por quilo. Além da fase agrícola, os processos industriais também aumentam o consumo de água. O tingimento de tecidos, por exemplo, pode exigir até 150 litros de água para cada quilo de material produzido.

LEIA TAMBÉM!

Outro aspecto crítico é o tratamento de efluentes. Na América Latina, onde o setor têxtil tem um papel econômico significativo, a região enfrenta desafios semelhantes aos da tendência global, onde cerca de 80% das águas residuais são descartadas sem tratamento adequado em rios e mares, ampliando os impactos ambientais da atividade.

A tecnologia como aliada na redução do consumo

A pressão sobre os recursos hídricos tem acelerado a adoção de tecnologias que visam a eficiência produtiva. Empresas dos setores têxtil e de impressão têm investido em soluções que diminuem etapas, insumos e desperdícios ao longo da cadeia produtiva.

A empresa japonesa Epson, por exemplo, faz parte desse movimento com sistemas de impressão digital que substituem processos tradicionais de tingimento, que exigem grandes volumes de água e múltiplas etapas químicas.

Nos métodos convencionais, o tingimento envolve pré-tratamento do tecido, aplicação de corantes, fixação a vapor e vários ciclos de lavagem para remoção de resíduos. Em contrapartida, as soluções digitais, como as impressoras da série Monna Lisa, permitem a aplicação direta da cor na superfície do tecido, com fixação por calor, reduzindo — e, em alguns casos, eliminando — processos que consomem muita água, como lavagem e vaporização.

Segundo dados da empresa, essa tecnologia pode reduzir o consumo de água em até 97% em comparação com os processos tradicionais.

A digitalização transforma a produção e minimiza desperdícios

A adoção da impressão digital também altera a lógica industrial do setor da moda. Em vez de produzir grandes volumes antecipadamente, o novo modelo permite a produção sob demanda, com tiragens menores e maior precisão no uso de matérias-primas.

Essa abordagem reduz as perdas associadas à superprodução, uma prática comum nas cadeias tradicionais, e melhora a eficiência no uso de recursos naturais e insumos.

Outro efeito positivo é a descentralização da produção. Equipamentos mais compactos possibilitam a instalação próxima aos centros de consumo, encurtando as cadeias logísticas, diminuindo o transporte e contribuindo para um menor impacto ambiental ao longo da cadeia de valor.

A reciclagem têxtil avança com tecnologias sustentáveis

A economia circular também está se consolidando como uma resposta estrutural aos desafios ambientais do setor. Tecnologias de reciclagem têxtil têm ampliado a capacidade de reaproveitamento de resíduos e peças descartadas. Um exemplo é a tecnologia Dry Fiber, desenvolvida pela Epson, que permite desfibrar roupas usadas e sobras industriais para a produção de novos materiais sem o uso intensivo de água.

Esse processo atua em duas frentes críticas da indústria: reduz a necessidade de novas fibras e diminui o consumo de água associado à produção têxtil. A proposta está alinhada aos princípios da economia circular, que buscam prolongar o ciclo de vida dos materiais e reduzir o descarte.

A aplicação dessas soluções já alcança segmentos de maior valor agregado, como demonstrado pelo designer japonês Yuima Nakazato, que utilizou materiais produzidos com essa tecnologia em suas coleções apresentadas na Semana de Alta Costura de Paris.

A sustentabilidade como fator competitivo

A incorporação de novas tecnologias e processos produtivos sinaliza uma mudança estrutural na indústria da moda, onde a sustentabilidade deixa de ser um diferencial e se torna um requisito competitivo. A redução do consumo de água, aliada à eficiência operacional, passa a ser parte integrante das decisões estratégicas das empresas, especialmente em regiões onde o setor é relevante para a economia.

Nesse contexto, a transformação da cadeia de valor têxtil tende a avançar à medida que inovação, regulação e demanda do consumidor convergem para modelos produtivos mais eficientes e com menor impacto ambiental.

Autor(a):

Com uma carreira que começou como stylist, Sofia Martins traz uma perspectiva única para a cobertura de moda. Seus textos combinam análise de tendências, dicas práticas e reflexões sobre a relação entre estilo e sociedade contemporânea.

Sair da versão mobile