Houthis avançam no Iêmen e ameaçam estreito por onde passa 30% do tráfego global de contêineres

A ofensiva Houthi na costa do Iêmen reacende a rota comercial crítica e expõe a estratégia iraniana de pressão indireta sobre o Ocidente.

19/09/2026 09:10

4 min

Vista do Estreito de Bab el-Mandeb em 2 de abril de 2026
Vista do Estreito de Bab el-Mandeb em 2 de abril de 2026

Os Houthis, grupo apoiado pelo Irã, avançaram na semana passada sobre novas posições na costa do Iêmen, colocando o Estreito de Bab el – Mandeb sob ameaça direta de artilharia e foguetes. A movimentação militar ocorre após um período de relativa calmaria mediado por Omã entre os EUA e o grupo iemenita.

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Agora, armas convencionais podem atingir navios que cruzam a passagem de 32 quilômetros de largura, por onde transitava cerca de 30% do tráfego global de contêineres antes dos conflitos atuais.

O estreito, cujo nome se traduz como “Portão das Lágrimas”, separa a Península Arábica da África e conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Aden. Sem ele, navios entre Ásia e Europa precisam contornar o sul da África, o que adiciona milhares de milhas e dias de viagem.

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A ofensiva Houthi recoloca o Irã como peça central em uma estratégia que já foi testada antes em Bab el – Mandeb: usar grupos armados em Estados frágeis para ganhar poder de barganha sem lutar diretamente.

Como o Irã construiu a ameaça no Iêmen

Desde 1979, o Irã busca expandir sua influência pelo Oriente Médio por meio do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e de sua elite, a Força Quds. O país treina e equipa grupos como o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, milícias no Iraque e, cada vez mais, os Houthis no Iêmen.

A estratégia é simples: construir redes armadas em Estados fragmentados para dar a Teerã profundidade estratégica sem necessidade de combate direto.

Os Houthis surgiram no norte do Iêmen entre o fim dos anos 1980 e a década de 1990, a partir de um movimento de revitalização do Islã xiita zaidita. Sob Hussein al – Houthi, o grupo tornou – se militante e adotou o nome Ansar Allah, com um slogan de inspiração iraniana: “Deus é grande.

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Morte à América. Morte a Israel. Malditos sejam os judeus. Vitória ao Islã.” Em 2014, tomaram a capital Sanaa, desencadeando uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita.

O Irã não criou os Houthis, mas forneceu armas, mísseis, drones e treinamento que transformaram uma insurgência local em uma força capaz de ameaçar a Arábia Saudita, alcançar Israel e bloquear o comércio global. Em 2023, logo após os ataques do Hamas em 7 de outubro, os Houthis lançaram mísseis contra Israel e atacaram navios comerciais no Mar Vermelho, alegando pressionar por causa de Gaza — mas atingindo embarcações sem relação com o conflito.

A trégua que favoreceu os Houthis e o novo ataque

Em abril de 2022, os EUA ajudaram a intermediar uma trégua no Iêmen, viabilizada em parte pela visita do presidente Joe Biden à Arábia Saudita. Em retrospecto, a trégua favoreceu os Houthis: o Irã continuou treinando e equipando o grupo para usá – lo em uma estratégia regional mais ampla.

Enquanto Washington recuava, retirando sistemas de defesa aérea da Arábia Saudita e contratorpedeiros do Oriente Médio, Teerã intensificava o contrabando de armas por rotas marítimas e terrestres.

Em 10 de janeiro de 2024, um diplomata americano se reuniu secretamente com autoridades iranianas em Omã para conter a escalada. Na noite anterior, os Houthis haviam realizado seu maior ataque contra navios comerciais e forças navais lideradas pelos EUA no Mar Vermelho, usando drones e mísseis.

Foi o maior ataque contra a Marinha dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. A reunião não obteve sucesso. No dia seguinte, Biden ordenou os primeiros grandes ataques dos EUA contra alvos Houthis, com apoio do Reino Unido, Austrália, Bahrein, Canadá e Países Baixos.

No ano passado, o presidente Donald Trump restabeleceu a classificação dos Houthis como terroristas e intensificou os ataques. Após sete semanas de bombardeios, Omã mediou um entendimento: os EUA parariam de bombardear e os Houthis deixariam de atacar embarcações americanas.

O acordo não incluía Israel nem a Arábia Saudita, mas trouxe certa calmaria — até a semana passada.

O que vem depois da ofensiva Houthi

Na ofensiva da última semana, forças Houthis conquistaram posições na costa do Iêmen com vista direta para Bab el – Mandeb e avançaram para a Ilha de Mayun, no meio do estreito. Com artilharia e foguetes, podem agora atingir navios sem depender apenas de drones e mísseis de longo alcance.

Por enquanto, embarcações continuam passando. Trump afirmou que os Houthis dizem não querer confronto e que permitirão a passagem.

As linhas de frente no Iêmen mudam com frequência. Há relatos de que forças governamentais preparam um contra – ataque e que Washington pode fornecer inteligência. O comandante do CENTCOM, Almirante Brad Cooper, esteve recentemente na Arábia Saudita para avaliar a situação.

Seja qual for o desdobramento, os Houthis mostraram que estão posicionados para permanecer — com apoio direto do Irã — como um fator imprevisível em qualquer disputa regional. E Washington, segundo analistas, nunca mais deve confundir calmaria com paz.

Autor(a):

Lucas Almeida é o alívio cômico do jornal, transformando o cotidiano em crônicas hilárias e cheias de ironia. Com uma vasta experiência em stand-up comedy e redação humorística, ele garante boas risadas em meio às notícias.

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