Genebra: Justiça Racial em foco! O que a ONU e a sociedade civil debateram em 2026?

Genebra Centraliza Debate Global sobre Justiça Racial em 2026
Genebra retomou um papel crucial no debate internacional acerca da justiça racial nesta semana. Entre os dias 14 e 17 de abril, o Palácio das Nações sediou a quinta sessão do Fórum Permanente das sobre Pessoas Afrodescendentes. Este encontro marca os cinco anos do mecanismo e simboliza o início da Segunda Década Internacional dos Afrodescendentes (2025–2034).
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Sob o tema “Expandir os direitos humanos das pessoas afrodescendentes”, o Fórum reuniu diversos atores, incluindo Estados-membros, especialistas independentes, organismos internacionais e representantes da sociedade civil. O foco principal é transformar compromissos históricos em políticas públicas com impacto real.
Desafios Estruturais e a Centralidade de Durban
Questões como justiça reparatória, a restituição de bens culturais e a situação da juventude afrodescendente estiveram em destaque nas discussões. Os debates se basearam em diagnósticos oficiais da própria ONU, que apontam para desigualdades estruturais persistentes.
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Documentos do Alto Comissariado para os Direitos Humanos indicam que, apesar dos avanços normativos recentes, pessoas afrodescendentes enfrentam disparidades em renda, educação, saúde e acesso à justiça. A ONU aponta que as taxas de pobreza são sistematicamente mais altas nessa população globalmente, afetando mais intensamente mulheres e jovens.
A Declaração de Durban como Marco Normativo
Neste cenário, a Declaração e Programa de Ação de Durban ganhou destaque na agenda internacional. Adotada em 2001, durante a Conferência Mundial contra o Racismo na África do Sul, ela é o principal guia da ONU contra o racismo e formas correlatas de intolerância.
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O documento reconhece os impactos profundos e duradouros da escravidão, do tráfico transatlântico e do colonialismo. Por isso, ele convoca os Estados a irem além do mero repúdio ao racismo, exigindo políticas ativas de igualdade e reparação.
Balanço e Ação da Sociedade Civil
Vinte e cinco anos após Durban, a ONU apresenta um panorama misto. Houve avanços notáveis, como a reforma de leis antidiscriminação em 42 países e a adesão de mais de 180 Estados à Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.
Contudo, o próprio sistema internacional admite que esses progressos ainda são insuficientes para desmantelar o racismo estrutural. É esse contraste entre o prometido e o vivido que mantém Durban no centro das discussões do Fórum.
A Influência da Organização Negra
Sara Branco, coordenadora de Incidência Internacional do Instituto de Referência Negra Peregum, enfatizou o papel decisivo da sociedade civil em conquistas multilaterais. Ela citou a resolução de Gana e da União Africana, que classifica a escravidão como o pior crime contra a humanidade.
Para ela, a pressão da sociedade civil foi vital, conectando os debates globais às disputas políticas locais. As decisões internacionais, segundo Branco, servem para que a sociedade civil cobre a implementação de políticas públicas coerentes com os compromissos assumidos.
A Participação Brasileira e o Caminho para a Reparação
O Brasil esteve ativamente envolvido nas discussões, representado por sua missão diplomática, organizações da sociedade civil e pela ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. Em seu discurso, a ministra reforçou o compromisso brasileiro com a igualdade racial internacional.
Ela destacou a criação do Ministério da Igualdade Racial, alertando que não há democracia sustentável sem enfrentar as hierarquias raciais herdadas do período escravocrata e colonial. A sociedade civil, por sua vez, foca em garantir que o consenso político gere resultados práticos.
Impacto Prático das Resoluções
Para o ativista brasileiro, diretor do Instituto Peregum e membro da Coalizão Negra por Direitos, resoluções internacionais não alteram vidas sozinhas. No entanto, elas são estratégicas por criarem linguagem, legitimidade e constrangimento internacional. É preciso impedir que a diplomacia se torne um “teatro sem consequência”.
Belchior complementa que é a sociedade civil quem liga a linguagem dos direitos humanos à realidade, forçando a conversão de compromissos globais em leis, políticas e orçamento. Sem essa pressão, a ONU produziria apenas papel.
Conclusão: Cobrando Ação Concreta
Nesta quarta-feira (15), o Instituto de Referência Negra Peregum, a Uneafro Brasil e a Coalizão Negra por Direitos solicitaram formalmente à presidência do Fórum o envio de uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e ao presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre.
O pedido visava a aprovação urgente da PEC 27/2024, que institui o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial no Brasil.
As entidades celebraram a resolução de Gana sobre a escravidão, reafirmando que a democracia no Brasil e no mundo depende da reparação efetiva. A participação brasileira se estendeu a debates paralelos sobre educação antirracista e memória, mostrando um esforço multifacetado para reposicionar o país no debate global sobre raça e justiça.
Autor(a):
Ricardo Tavares
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.



