Funeral do criminoso de guerra Ratko Mladic reúne milhares na Sérvia e reabre feridas
A homenagem expôs a persistência do nacionalismo sérvio e reacendeu o debate sobre o massacre de Srebrenica e o cerco de Sarajevo, na Bósnia.
Milhares de pessoas foram a Belgrado nesta segunda – feira (7) para acompanhar o funeral do ex – general sérvio – bósnio Ratko Mladic, morto na semana passada enquanto cumpria prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
A cerimônia ocorreu em uma igreja de um subúrbio da capital sérvia e foi conduzida pelo patriarca sérvio Porfirije, líder da Igreja Ortodoxa do país.
Com bandeiras da Sérvia e imagens de Mladic usando um tradicional gorro militar sérvio, os participantes acompanharam o cortejo pelas ruas. O caixão, escoltado por soldados armados e uniformizados, seguiu ao som de uma banda de metais até um cemitério próximo, onde o ex – general foi enterrado ao lado da filha, que morreu em 1994.
Funeral reúne admiradores de Ratko Mladic
O funeral foi considerado um dos maiores realizados na Sérvia desde a queda do comunismo, em 1990. A presença das multidões expôs a admiração que Mladic ainda desperta entre muitos sérvios e moradores da República Sérvia, entidade autônoma da Bósnia.
Essa reverência contrasta com a responsabilidade atribuída a ele pelo massacre de Srebrenica, em 1995, e pelo cerco de Sarajevo, episódios que estão entre os mais sangrentos da Europa no pós –guerra. “Ele é um herói”, afirmou Djordje, de 34 anos, que viajou de Prijepolje para prestar homenagem. “Ele foi um grande estrategista militar.”
Mladic foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas para a ex – Iugoslávia por genocídio relacionado ao massacre de Srebrenica. Cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios foram mortos depois que forças sérvio – bósnias tomaram a área declarada enclave protegido pela ONU.
O cerco de Sarajevo durou 43 meses e deixou cerca de 10 mil mortos.
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Reações na Sérvia e na Bósnia
A morte de Mladic reacendeu as divisões provocadas pela dissolução da Iugoslávia e pelos conflitos étnicos dos Bálcãs. Na semana passada, Marta Kos, comissária da União Europeia para o Alargamento, adiou uma visita à Sérvia, candidata a integrar o bloco, por causa do que chamou de “glorificação” de Mladic.
Entre os episódios citados estava o uso de um avião do governo para levar o corpo de volta à Sérvia.
“Os conflitos armados dos Bálcãs Ocidentais na década de 1990 estiveram entre os momentos mais sombrios da história recente da Europa”, declarou um porta – voz da União Europeia nesta segunda – feira (7). O comunicado acrescentou que a glorificação de criminosos de guerra, a negação de genocídio e o revisionismo “não têm lugar na União Europeia ou em países candidatos ao bloco”.
O presidente sérvio Aleksandar Vucic, que havia rejeitado a manifestação de Kos, não participou da cerimônia. Seu filho, Danilo, esteve no funeral, assim como o ministro da Defesa, Bratislav Gasic, e o ministro da Justiça, Nenad Vujic.
Em Sarajevo, empresas de telecomunicações da Federação da Bósnia e Herzegovina, de maioria bósnia e croata, bloquearam o sinal de duas emissoras sérvio – bósnias que transmitiam o funeral e o cortejo. O ministro das Relações Exteriores da Bósnia, Elmedin Konakovic, também anunciou a retirada de todos os funcionários da embaixada em Belgrado, com exceção do embaixador e do cônsul, em protesto contra a condução do funeral pela Sérvia.
Para Zdravka Gvozdjar, farmacêutica aposentada cujo filho de 9 anos morreu atingido por uma granada durante o cerco de Sarajevo, a homenagem foi dolorosa. “Mladic… só merecia ser apagado da memória para sempre, não ser… promovido como herói”, disse ela. “Ele deveria ser lembrado apenas como um açougueiro.”