Funeral do criminoso de guerra Ratko Mladic reúne milhares na Sérvia e reabre feridas

A homenagem expôs a persistência do nacionalismo sérvio e reacendeu o debate sobre o massacre de Srebrenica e o cerco de Sarajevo, na Bósnia.

07/09/2026 13:11

3 min

Pessoas em luto prestam suas últimas homenagens ao caixão de Ratko Mladic, criminoso de guerra condenado. (06.09.26)
Pessoas em luto prestam suas últimas homenagens ao caixão de Rat...

Milhares de pessoas foram a Belgrado nesta segunda – feira (7) para acompanhar o funeral do ex – general sérvio – bósnio Ratko Mladic, morto na semana passada enquanto cumpria prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

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A cerimônia ocorreu em uma igreja de um subúrbio da capital sérvia e foi conduzida pelo patriarca sérvio Porfirije, líder da Igreja Ortodoxa do país.

Com bandeiras da Sérvia e imagens de Mladic usando um tradicional gorro militar sérvio, os participantes acompanharam o cortejo pelas ruas. O caixão, escoltado por soldados armados e uniformizados, seguiu ao som de uma banda de metais até um cemitério próximo, onde o ex – general foi enterrado ao lado da filha, que morreu em 1994.

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Funeral reúne admiradores de Ratko Mladic

O funeral foi considerado um dos maiores realizados na Sérvia desde a queda do comunismo, em 1990. A presença das multidões expôs a admiração que Mladic ainda desperta entre muitos sérvios e moradores da República Sérvia, entidade autônoma da Bósnia.

Essa reverência contrasta com a responsabilidade atribuída a ele pelo massacre de Srebrenica, em 1995, e pelo cerco de Sarajevo, episódios que estão entre os mais sangrentos da Europa no pós –guerra. “Ele é um herói”, afirmou Djordje, de 34 anos, que viajou de Prijepolje para prestar homenagem. “Ele foi um grande estrategista militar.”

Mladic foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas para a ex – Iugoslávia por genocídio relacionado ao massacre de Srebrenica. Cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios foram mortos depois que forças sérvio – bósnias tomaram a área declarada enclave protegido pela ONU.

O cerco de Sarajevo durou 43 meses e deixou cerca de 10 mil mortos.

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Reações na Sérvia e na Bósnia

A morte de Mladic reacendeu as divisões provocadas pela dissolução da Iugoslávia e pelos conflitos étnicos dos Bálcãs. Na semana passada, Marta Kos, comissária da União Europeia para o Alargamento, adiou uma visita à Sérvia, candidata a integrar o bloco, por causa do que chamou de “glorificação” de Mladic.

Entre os episódios citados estava o uso de um avião do governo para levar o corpo de volta à Sérvia.

“Os conflitos armados dos Bálcãs Ocidentais na década de 1990 estiveram entre os momentos mais sombrios da história recente da Europa”, declarou um porta – voz da União Europeia nesta segunda – feira (7). O comunicado acrescentou que a glorificação de criminosos de guerra, a negação de genocídio e o revisionismo “não têm lugar na União Europeia ou em países candidatos ao bloco”.

O presidente sérvio Aleksandar Vucic, que havia rejeitado a manifestação de Kos, não participou da cerimônia. Seu filho, Danilo, esteve no funeral, assim como o ministro da Defesa, Bratislav Gasic, e o ministro da Justiça, Nenad Vujic.

Em Sarajevo, empresas de telecomunicações da Federação da Bósnia e Herzegovina, de maioria bósnia e croata, bloquearam o sinal de duas emissoras sérvio – bósnias que transmitiam o funeral e o cortejo. O ministro das Relações Exteriores da Bósnia, Elmedin Konakovic, também anunciou a retirada de todos os funcionários da embaixada em Belgrado, com exceção do embaixador e do cônsul, em protesto contra a condução do funeral pela Sérvia.

Para Zdravka Gvozdjar, farmacêutica aposentada cujo filho de 9 anos morreu atingido por uma granada durante o cerco de Sarajevo, a homenagem foi dolorosa. “Mladic… só merecia ser apagado da memória para sempre, não ser… promovido como herói”, disse ela. “Ele deveria ser lembrado apenas como um açougueiro.”

Autor(a):

Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.

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