Ameaça de envenenar a água de 46 famílias indígenas leva Força Nacional a aldeia em Dourados (MS)

Cacique Nestor relaciona a pressão sobre os Guarani e Kaiowá da Yvu Verá 2 à vitória de Lula, e a aldeia, com uma única caixa dágua, teme pela água que consome.

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Indígenas protestam contra o Marco Temporal na 20ª edição do Acampamento Terra Livre | Foto: Apib/ Isaka Hunikui

Lideranças indígenas do Mato Grosso do Sul denunciam violência política e intimidações após o resultado das eleições do dia 25. Uma ameaça de envenenamento contra os Guarani e Kaiowá da aldeia Yvu Verá 2, em Dourados (MS), elevou o nível de alerta a ponto de exigir o envio da Força Nacional ao local.

Segundo a DW, o cacique Nestor associa o aumento das ameaças ao resultado eleitoral. Para ele, a comunidade passou a sofrer mais pressão depois da vitória do presidente Lula, e a principal preocupação agora é a água que consomem.

Áudio com ameaça à água acende alerta em Dourados

O medo começou quando moradores da região trocaram mensagens de áudio que chegaram à aldeia. Em uma das gravações, um homem se refere aos indígenas que votaram no PT como “desgraçados” e “pragas”, e afirma que eles deveriam morrer com “veneno na água”.

Nestor diz que as ameaças não são novidade e que a comunidade já vinha sendo pressionada havia tempo.

Ao apontar quem estaria por trás dos ataques, o cacique cita bolsonaristas, agropecuaristas e até policiais. A voz de um dos homens nos áudios é atribuída a um servidor da prefeitura de Tacuru (MS), município vizinho a Dourados. À DW, a prefeitura disse que tomava as providências cabíveis e que os funcionários envolvidos já tinham sido identificados e afastados.

Em nota, o Executivo municipal afirmou que esses servidores não tinham qualquer ligação com o abastecimento de água.

Aldeia depende de uma única caixa dágua e de caminhão-pipa

A Tekoha Yvu Verá 2, nome que os próprios indígenas usam para o local, começou a ser ocupada há quatro anos. Os Guarani e Kaiowá dizem que a área fazia parte do território tradicional do povo e que a retomada aconteceu porque o Estado demorou a reconhecer a demanda e a demarcar a terra.

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No local, 46 famílias vivem em barracas de lona, madeira e telha de fibrocimento. A aldeia tem apenas uma caixa dágua, com capacidade para 1,5 mil litros, que recebe água de um caminhão-pipa uma vez por semana. Depois de armazenada, a água é distribuída entre todos os moradores, conforme a liderança.

Nestor afirma que a comunidade hoje teme consumir essa água. A alternativa seria voltar ao córrego próximo, de onde os indígenas tiravam água antes da chegada do caminhão-pipa. Só que os moradores suspeitam que o riacho esteja contaminado, já que casos de dor de estômago, diarreia, dor de cabeça e tontura costumavam aparecer logo após o consumo.

Ameaças se somam a um conflito antigo no estado

Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do país, e os Guarani e Kaiowá convivem há décadas com violência ligada à disputa por terras. Para o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o cenário político recente acrescentou uma nova camada a esse problema.

Matias Rempel, do Cimi, afirma que os indígenas já enfrentavam o bolsonarismo antes da eleição e que parte das chamadas milícias rurais se identifica com esse campo político.

Durante a campanha, novos relatos de discurso de ódio surgiram em diferentes regiões do estado. Entre os Terena, no Pantanal, houve pessoas que defenderam cortar serviços básicos, como água e energia elétrica, de comunidades indígenas, sob a alegação de que esses grupos tinham votado em Lula.

Contaminação de córrego em 2012 pesa na memória da comunidade

Para os Guarani e Kaiowá, a ameaça de envenenamento tem peso especial. Em 2012, a aldeia Ypoi, em Paranhos (MS), denunciou a contaminação de um córrego local, que apresentou espuma e coloração esbranquiçada. Foi preciso que o Ministério Público atuasse para garantir água potável à comunidade.

Lideranças locais também relatam pulverização aérea de agrotóxicos perto de aldeias, o que, segundo elas, serve para intimidar os moradores e reduzir as condições de sobrevivência no território. Rempel avalia que a ameaça de envenenar a água atinge uma das formas mais concretas de violência contra esse povo, e não é apenas discurso de ódio.

Retomadas avançam e cacique relata intimações e ameaças

A aldeia Yvu Verá 2 está entre as treze áreas retomadas recentemente pelos Guarani e Kaiowá. Os acampamentos se concentram sobretudo no entorno da Reserva Indígena de Dourados. Demarcada em 1917, a reserva tem 24 quilômetros quadrados e, segundo as lideranças, é pequena para abrigar mais de 13 mil indígenas.

Também não corresponde ao espaço ocupado antes da expansão das fazendas.

Às margens de um importante anel viário que segue para Dourados, Nestor conta que produtores rurais passam com caminhonetes para intimidar os indígenas e chegam a tentar atropelá-los. Ele também diz receber intimações frequentes para prestar esclarecimentos à polícia.

Na última vez, cerca de um mês atrás, os policiais perguntaram sobre a localização de escritórios do Cimi e sobre um suposto envolvimento da entidade nas retomadas.

Ao DW, o cacique disse que respondeu aos policiais que a comunidade vai seguir com as retomadas. Ele também fez um alerta: se algo acontecer com o grupo, as autoridades já sabem das ameaças.

Governo envia comitiva a Dourados e a outras aldeias

No sábado 31, o governo federal anunciou, em nota, que uma comitiva vai a Dourados para apurar as denúncias de violência contra comunidades indígenas. Fazem parte do grupo o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, e a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello.

A agenda também prevê visitas às aldeias Taquapery, em Coronel Sapucaia (MS), e Sassoró, em Tacuru (MS).

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