Feicom Coop: Centenas Mil Participam em Rio Grande Do Sul

Feicom Coop: Centenas mil participam em Rio Grande Do Sul, impulsionando economia solidária com foco no futuro da sustentabilidade.

Ao longo da programação, cerca de 100 mil pessoas passaram pela 32ª Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária (Feicoop)

Os corredores de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, foram palco novamente da força das comunidades e dos saberes populares neste último fim de semana. A cidade se transformou em um vibrante centro latino – americano ao sediar a 32ª Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária (Feicoop.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O evento reuniu sotaques diversos do Brasil e América Latina para debater justiça social, enfrentar as mudanças climáticas e apresentar centenas de experiências baseadas na economia solidária e cooperativas populares.

A magnitude da rede coativa

Ao longo desses três dias intensos, cerca de cem mil pessoas circularam pela feira que manteve os corredores lotados com cores, sabores e muita troca. A participação foi vasta: foram apresentados mais de cinquenta seminários e oficinas formativas em um mosaico vivo de cooperação econômica.

Empreendimentos populares vieram dos 16 estados brasileiros participantes, além das delegações oficiais vindas da Argentina, Uruguai e Equador. Somando a isso são quinhentos e cinquenta e seis empreendimentos já estabeleceram suas bancadas na Feicoop neste ano.

Solidariedade como motor transformador

Para Zeca Peranconi, coordenador do Projeto Esperança Cooesperança, o encontro reafirmou que “a solidariedade continua sendo uma força capaz de unir pessoas, culturas e comunidades em torno de um projeto comum”. Ele destacou os reencontros e as novas parcerias construídas ao longo dos dias da feira.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A avaliação sobre este ciclo foi formalizada pela Carta oficial da 32ª Feicoop. O documento não apenas faz balanço das atividades realizadas; ele assume também a missão maior de fortalecer formas organizacionais capazes de enfrentar múltiplas crises globais.

Nesta perspectiva, convida – se ativamente todos os participantes para “esperançar”, conceito diretamente ligado à filosofia educacional desenvolvida por Paulo Freire — entender esperança como uma prática coletiva que exige ação transformadora na realidade presente do indivíduo ou comunidade.

Leia também

Resiliência e o legado dos movimentos sociais

Ao longo dessas mais de três décadas (a feira foi criada em 1994), Feicoop consolidou seu papel não apenas comercial. Ela se tornou um ponto permanente onde trabalhadores rurais, urbanos, universidades e grupos religiosos encontram diálogo sobre alternativas econômicas baseadas no comércio justo e autogestão.

Essa trajetória é comparada a momentos históricos marcantes para os direitos populares brasileiros: quando milhares ocuparam Porto Alegre, em 2001, durante o Fórum Social Mundial, buscando construir modelos alternativos ao avanço do neoliberalismo.

A economia solidária sempre esteve central nesse debate porque provava que era possível produzir riqueza de outras maneiras — sem depender exclusivamente das grandes cadeias produtivas dominantes. Mesmo com as questões atuais persistindo – como aumento da concentração de renda ou novas formas de precarização –, Feicoop mostra essa alternativa ganhando forma concreta no cotidiano dos empreendimentos espalhados pelo país e pela América Latina.

Irmã Lourdes Dill reforçou a longevidade desse projeto em carta enviada desde Moçambique: “São 32 anos de construção coletiva, e nem mesmo… grupos contrários à esta proposta conseguiram derrubá – la”.

Desafios contemporâneos na economia solidária

A programação também trouxe o foco urgente sobre os desafios ambientais. No Rio Grande do Sul— ainda marcado pelas enchentes que ocorreram em 2024 —, discutir cooperação significa debater formas concretas de reconstrução territorial.

Agroecologia como caminho. Experiências práticas foram apresentadas ao longo da feira: desde sistemas agroflorestais e manejo ecológico dos solos até a produção local de bioinsumos, mostrando que enfrentar crises climáticas passa diretamente pela forma correta de produzir alimentos.

Nesse sentido, fortalecer a soberania alimentar é crucial para diminuir tanto o risco das cadeias produtivas quanto sua dependência externa. Rosângela Vargas, descendente indígena charrua, reforçou essa conexão profunda com os ciclos naturais:

“Na natureza encontramos as curas… podemos encontrar a cura para o planeta.”

O protagonismo feminino na liderança. Um elemento central da Feicoop foi também o papel decisivo e crescente do público feminino nos empreendimentos presentes no evento. Grande parte dos negócios são organizados ou coordenados por mulheres que atuam em diversas frentes — desde agroindustrialização até finanças solidárias.

“As mulheres querem fazer economia solidária porque sabem de sua potência para alimentar a vida”, afirmou Suzi Gutbier, formadora pelo Projeto Educar e Cooperar. Segundo ela, esse desejo vai além apenas produzir; é assumir um lugar ativo nas redes e movimentos sociais com força libertadora.”

Feira como modelo econômico

A Feicoop demonstra o potencial da cooperação ao propor uma métrica diferente do sucesso. Enquanto modelos dominantes medem resultados pela produtividade ou crescimento financeiro puro, aqui entram critérios que valorizam mais os saberes populares, igualdade entre gêneros e preservação ambiental.

“Compartilha saberes, produz conhecimento e coloca as pessoas, e não as mercadorias, no centro da vida econômica”, sintetiza a Carta final deste ano. Para Andréia Silva, empreendedora social responsável por um espaço de alimentação na feira, essa visão se traduz em prática: servir refeições feitas com alimentos adquiridos diretamente dos próprios feirantes locais.”