Estudo da eBio Medicine liga Covid longa à queda de dopamina no cérebro
Estudo publicado na eBio Medicine aponta inflamação cerebral como possível causa da perda de dopamina em pacientes com sequelas neurológicas da Covid longa.
Cientistas identificaram uma possível causa para sintomas neurológicos comuns em pacientes com Covid longa, como falta de motivação, lentidão para pensar, problemas de memória e cansaço físico. De acordo com um estudo publicado na revista eBio Medicine, essas sequelas podem estar ligadas a alterações no sistema de dopamina do cérebro.
Pesquisadores usaram exames de imagem para investigar se o vírus teria danificado os neurônios responsáveis por produzir dopamina. Foram analisados 24 adultos com Covid longa que tiveram uma infecção leve ou moderada. O grupo foi comparado com 24 pessoas saudáveis da mesma faixa etária, e depois a amostra foi ampliada para análises complementares.
Exame aponta perda de proteína no cérebro
Durante o estudo, foi realizado um exame avançado de tomografia por emissão de pósitrons. Uma substância marcadora mediu a quantidade da proteína VMAT2 no cérebro. Os resultados mostraram que os pacientes com Covid longa apresentavam níveis reduzidos dessa proteína no estriado, em comparação com pessoas saudáveis.
Pacientes que se recuperaram totalmente, por outro lado, tinham níveis normais de dopamina. Isso indicou que a perda é específica da Covid longa e não uma consequência inevitável de ter tido o vírus.
Por que os neurônios de dopamina são danificados
A pesquisa apontou duas razões principais para o dano. A primeira é uma reação exagerada do sistema de defesa do cérebro: após a infecção, a inflamação pode se prolongar, e as células de defesa (micróglias) entram em estado de hiperatividade, destruindo por engano conexões nervosas saudáveis de dopamina.
O segundo motivo está relacionado às “portas de entrada” do vírus. Os neurônios que produzem dopamina têm uma grande quantidade de receptores ACE2, as estruturas que o vírus usa para invadir as células. Isso os torna especialmente frágeis durante a infecção.
A redução nas conexões de dopamina foi considerada surpreendentemente alta, semelhante à observada nos estágios iniciais e moderados de doenças como o Parkinson ou transtornos do sono associados a ela.
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O que os cientistas descartaram
Para confirmar o achado, os pesquisadores analisaram outros fatores. A perda de dopamina se manteve parecida tanto em quem teve Covid há poucos meses quanto em quem teve há mais de quatro anos — o período variou de dois a 56 meses no estudo. O problema também apareceu independentemente da variante do vírus contraída.
Os testes mostraram ainda que a perda de dopamina não tinha relação com a depressão tradicional. Além disso, exames de sangue comuns não conseguem medir essa perda, já que a dopamina no sangue vem quase toda de órgãos como rins e glândulas, e não do cérebro.
Impacto no tratamento e no diagnóstico
Até agora, não existiam tratamentos específicos para a causa da Covid longa. Com a identificação da falta de dopamina como problema central, os médicos passam a ter um alvo claro. O estudo sugere testar medicamentos em ensaios clínicos para ajudar no tratamento dos pacientes.
Os cientistas também descobriram que uma versão mais simples do exame de imagem pode ser usada. Isso permite utilizar marcadores com maior duração, barateando o processo e tornando o diagnóstico viável em hospitais comuns, sem necessidade de equipamentos complexos.