Estudo com indígenas Tsimané e Mosetén na Amazônia revela por que demência é rara

Duas populações indígenas que vivem na Amazônia boliviana despertam o interesse de cientistas por um motivo inusitado: a baixíssima taxa de demência entre seus integrantes. Um estudo recém – publicado na revista Alzheimers & Dementia mostra que menos de 2% dos Tsimané e Mosetén convivem com a condição. O achado ganha relevância justamente por contrastar com a rotina de sociedades urbanas e industrializadas.
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A alimentação, o nível de atividade física e a organização do dia a dia nessas comunidades estão entre os fatores que os pesquisadores investigam para entender como podem influenciar o envelhecimento cerebral. Apesar da baixa prevalência, os novos casos de demência identificados ao longo do acompanhamento não foram tão raros quanto se esperava inicialmente.
Quem são os Tsimané e os Mosetén
Os Tsimané e os Mosetén habitam a região amazônica da Bolívia, mas apresentam diferenças no grau de integração com a sociedade boliviana. Os Tsimané mantêm um modo de vida mais voltado à subsistência e vivem, em sua maioria, em comunidades próximas ao rio Maniqui.
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Já os Mosetén, embora compartilhem laços históricos e linguísticos com os Tsimané, estão mais integrados ao país.
O interesse científico por esses grupos cresceu depois de um estudo anterior, também publicado na Alzheimers & Dementia em 2022. Na ocasião, pesquisadores avaliaram 623 indígenas com 60 anos ou mais. Entre os 435 Tsimané, encontraram cinco casos de demência — prevalência de 1,2%. Já entre os 169 Mosetén, apenas um caso foi registrado, o equivalente a 0,6%. Todos os diagnósticos ocorreram em participantes com 80 anos ou mais.
Aquele estudo já indicava que os dois grupos compartilham características que podem ser relevantes para a saúde na velhice: níveis elevados de atividade física, baixa frequência de alguns fatores de risco cardiovascular e uma dieta com menor presença de carboidratos e gorduras processados.
Os próprios autores, no entanto, trataram esses aspectos como possíveis fatores associados, e não como uma explicação comprovada para a baixa prevalência de demência.
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O que o novo acompanhamento revelou
A pesquisa mais recente acompanhou 730 adultos que não tinham demência no início da investigação. Após uma mediana de 4,7 anos, os cientistas identificaram 22 novos casos. A incidência foi de 7,40 casos por mil pessoas – ano, enquanto a prevalência se manteve abaixo de 2%.
O estudo também constatou uma mortalidade significativamente maior entre os participantes que já viviam com demência no começo do acompanhamento. Para os pesquisadores, esse dado ajuda a explicar por que a quantidade de pessoas com a condição permanece baixa, mesmo com o surgimento de novos casos ao longo do tempo.
Nas análises exploratórias, a equipe encontrou associações entre a ocorrência de demência e fatores como a variante genética APOE ε 4, o cálcio na aorta torácica e os níveis de neurofilamento de cadeia leve no sangue. Os autores, porém, ressaltam que esses resultados ainda precisam de mais investigação antes de qualquer conclusão.
Autor(a):
Júlia Mendes
Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.



