Escrever corretamente gera desconfiança de uso de inteligência artificial entre leitores em 2026

A questão sobre a colocação de uma simples vírgula, como em “Oi, amigo”, passou a gerar desconforto e desconfiança entre os leitores. O receio é que quem escreve desse jeito esteja utilizando inteligência artificial. A doutoranda e mestre em educação Carol Jesper, criadora da página “Português é legal”, observa que, por muito tempo, o temor estava em não dominar a norma – padrão.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Agora, há um novo medo: ser julgado por dominá – la.
Em entrevista à CNN Brasil, Jesper, autora do livro “Não foi isso que eu quis dizer”, explica que essa preocupação vai além da língua. Está ligada à forma como as pessoas percebem quem escreve. Antes da IA, havia uma associação automática entre textos sem erros e pessoas estudadas ou competentes.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Atualmente, uma nova conexão começa a se formar.
Transformações na percepção da escrita
Com a ascensão da inteligência artificial, surgem novas associações problemáticas. Tanto a antiga quanto a nova associação confundem aspectos superficiais da linguagem com a capacidade intelectual do autor. Por exemplo, um sinal frequentemente relacionado à escrita gerada por IA — o travessão — está perdendo sua força distintiva.
Um levantamento feito pelo The Economist analisou 55.940 frases e 1,2 milhão de palavras e revelou que apenas o Claude utilizou mais travessões do que escritores humanos.
Essa pesquisa ajuda a desmistificar o uso desse sinal como um indicativo de texto produzido por IA. Mas o que torna um texto suspeito de ser escrito por inteligência artificial? Características como frases bem organizadas, vocabulário sofisticado e pontuação precisa costumam ser citadas.
Leia também
No entanto, esses elementos não são exclusivos da IA; eles já fazem parte da escrita humana desde antes dos modelos gerativos existirem. A influência dessa nova percepção tem levado algumas pessoas a modificar seu estilo de escrita. Carol Jesper relata casos de indivíduos que intencionalmente preservam ou simulam erros para parecerem mais humanos.
O paradoxo da escrita e suas consequências
Esse fenômeno gera um paradoxo: ao longo dos anos, incentivamos os estudantes a expandir seus vocabulários e dominar regras gramaticais. Agora, essas mesmas habilidades podem levantar suspeitas quanto ao uso de IA na produção textual. Jesper destaca que essa mudança desvia o foco do que realmente importa: a capacidade de criar conteúdo intelectual próprio.
A situação se complica ainda mais com um estudo publicado em 2023 na revista Patterns, que mostrou um viés claro nos textos em inglês: aqueles escritos por não nativos eram frequentemente marcados como produções de IA mais do que os textos de nativos, mesmo quando 100% humanos.
A suspeita sobre o uso de IA vai além do estilo; carrega consigo uma acusação de desonestidade para qualquer escritor — seja aluno ou profissional — que busque escrever corretamente. Segundo Carol Jesper, lidar com essa desconfiança tem se tornado um desafio crescente.
Quando professores percebem alunos entregando trabalhos acima das expectativas para sua fase escolar, isso não significa necessariamente que houve uso de IA — pode ser apenas um estudante mais dedicado ou bem informado. Por isso, Jesper defende que ninguém deve abrir mão da escrita cuidadosa para evitar suspeitas indesejadas.
No contexto informal, existem aqueles que preferem relaxar as regras gramaticais e outros que mantêm rigor no uso delas. Essas são escolhas pessoais sobre registro linguístico. O importante é evitar erros deliberados para parecer mais humano.
A presença da inteligência artificial nos leva a reavaliar uma crença antiga: a ideia de que dominar as normas é sinônimo de inteligência ou competência. Produzir textos impecáveis tornou – se fácil demais para continuar servindo como prova disso. “Espero que sejamos levados a avaliar com mais atenção o conteúdo do texto e não apenas sua apresentação”, conclui Carol Jesper.
Autor(a):
Pedro Santana
Ex-jogador de futebol profissional, Pedro Santana trocou os campos pela redação. Hoje, ele escreve análises detalhadas e bastidores de esportes, com um olhar único de quem já viveu o outro lado. Seus textos envolvem os leitores e criam discussões apaixonadas entre fãs.



