Edgar Morin: Reflexões Urgentes Sobre a Complexidade da Existência Humana

Legado de um Pensador Complexo: Reflexões Sobre a Morte de Edgar Morin
Na sexta-feira, 29, o mundo perdeu Edgar Morin, um intelectual cuja obra continua a ressoar com urgência e profundidade. Eu me deparei, ao receber a notícia, com a memória de dois encontros marcantes que tive com ele – um presencial, outro simbólico, ambos profundamente ligados.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
A jornada que se iniciava em Porto Alegre, em 2011, e se estendia até a minha formação acadêmica, revelava a importância de um pensamento que desafiava as simplificações e abraçava a complexidade inerente à condição humana.
A Conferência de Porto Alegre: Um Convite à Complexidade
A primeira vez que ouvi Edgar Morin foi em uma conferência em Porto Alegre. A plateia, atenta e engajada, acompanhou suas reflexões sobre o presente e o futuro da humanidade. Ele defendia a necessidade de “reaprender a pensar a complexidade”, argumentando que os problemas do nosso tempo não podiam ser resolvidos com abordagens reducionistas.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Morin enfatizava a importância de conectar conhecimentos, superar fragmentações e reconhecer que a humanidade compartilhava um destino comum. A conferência me deixou com a impressão de ter encontrado alguém capaz de transformar inquietação em horizonte, alguém que pensava sem simplificar o mundo, mas sem perder a esperança.
Sua defesa do pensamento complexo, que reconhecia a interconexão de todos os aspectos da existência, era um chamado à responsabilidade e à ação.
Leia também
Morin alertava que o caminho não estava traçado, incentivando a constante busca por novas perspectivas. Sua abordagem não era um diagnóstico fechado, mas sim um convite permanente à complexidade e à responsabilidade humana. Ele nos lembrava da dificuldade contemporânea de conectar economia, cultura, política, ecologia e subjetividade, mas também da importância de um pensamento capaz de reconhecer essa interdependência.
O Encontro com o Armandinho: Uma Aplicação Prática do Pensamento de Morin
Alguns anos depois, durante meu mestrado em Letras na URI Frederico Westphalen, tive um segundo encontro com Morin através do trabalho de Alexandre Beck e suas tiras de quadrinhos, “Armandinho”. Silvia Helena Niederauer, minha orientadora, introduziu o livro, que abriu novas possibilidades de pesquisa e reflexão.
Morin propunha repensar a educação a partir de sete eixos, que se tornaram o foco da minha pesquisa. As tiras de Beck, com seu personagem inquieto e questionador, permitiram uma aplicação prática do pensamento de Morin.
Em 2017, o projeto evoluiu para um experimento que foi levado a eventos culturais e feiras literárias, culminando no compartilhamento de atividades de formação com professores da rede pública. As tirinhas foram utilizadas como ferramenta pedagógica transdisciplinar, articulando as ideias de Morin com a linguagem acessível e provocadora das tirinhas.
Essa experiência resultou em um texto publicado na coletânea “Educar é um ato de amor”, que traduziu a obra de Beck à luz dos saberes de Morin. Foi uma experiência significativa de tradução pedagógica, que demonstrou a potência do pensamento de Morin para transformar a forma como vemos e interagimos com o mundo.
Um Pensamento Vivo e Relevante
O menino de cabelos azuis, Edgar Morin, passou de leitura para trabalho, pesquisa e prática. Ele dialogava diretamente com o pensamento do francês, traduzindo-o na linguagem simples, crítica e provocadora das tirinhas. Sua obra, que abordava questões como a crítica ao pensamento reducionista, a contextualização do conhecimento, a compreensão do outro, a ética como responsabilidade coletiva e a consciência de pertencemos a um mesmo planeta, continuava relevante em tempos de incertezas e desafios. Morin defendia que uma nova humanidade era improvável, mas possível, e que precisamos de mais autonomia e comunidade, mais pensamento e compreensão, mais consciência planetária e mais humanidade.
Ao receber a notícia de sua morte, volto à plateia de 2011 e à sala de formação em 2017. Volto aos textos, às tirinhas, às conversas e aos caminhos pedagógicos que sua obra ajudou a abrir. Percebo que alguns autores não são apenas livros ou memórias intelectuais; eles atravessam nosso jeito de ler o mundo, caminhando junto conosco como companheiros de jornada.
Um Legado de Esperança e Complexidade
Edgar Morin permanece. Com suas perguntas, sua inquietação, sua defesa radical do pensamento complexo e sua confiança de que educar continua sendo um gesto profundamente humano de religar saberes, cultivar compreensão e apostar, mesmo em tempos difíceis, que outro caminho ainda pode ser construído enquanto caminhamos.
Sua obra nos convida a abraçar a complexidade, a questionar as certezas e a buscar soluções inovadoras para os desafios do nosso tempo. Um legado que continua a inspirar e a nos desafiar a pensar de forma mais profunda e crítica.
Autor(a):
Ricardo Tavares
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.



