Coreia do Sul vive crise de energia enquanto gigantes de chips batem recordes
Crise de energia na Coreia do Sul e desigualdade econômica
A Coreia do Sul enfrenta uma severa crise global de fornecimento de energia, que impactou significativamente o país. As autoridades locais têm recomendado a conservação de energia, revisado para baixo as previsões de crescimento e alertado sobre as consequências da inflação elevada e da desvalorização da moeda, que atingiu seu menor nível em 17 anos.
Apesar desse cenário, as principais empresas sul-coreanas estão reportando lucros recordes, e o mercado de ações está alcançando máximas históricas. Essa contradição revela a existência de duas realidades econômicas distintas na Ásia.
Uma dessas realidades é impulsionada por grandes empresas de tecnologia e pelas promessas da inteligência artificial, enquanto a outra é marcada pela escassez de combustível e pelo aumento dos preços. Economistas alertam que a desigualdade gerada pela escassez de petróleo na Ásia pode afetar a estabilidade política e o crescimento econômico futuro em todo o continente e em outras regiões que dependem dele para o comércio.
Benson Wu, economista do Bank of America Merrill Lynch, destacou que, embora a economia esteja em expansão, o efeito riqueza é limitado nas atividades diárias da população, o que gera preocupações entre os especialistas.
Desigualdade aumentada pela pandemia e por conflitos
A disparidade econômica se intensificou devido à pandemia de Covid-19 e, mais recentemente, ao conflito no Oriente Médio. O tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, que normalmente transporta um quinto do petróleo bruto mundial, foi severamente afetado.
A Ásia, dependente do Oriente Médio para suas necessidades energéticas, sentiu o impacto inicial dos preços elevados, mas essa pressão não é sentida de maneira uniforme. Economias avançadas e tecnologicamente desenvolvidas, como Japão, Coreia do Sul e Taiwan, têm mais recursos financeiros para lidar com os preços altos e garantir estoques adequados.
Por outro lado, países como Índia, Filipinas e Tailândia, que dependem mais da indústria tradicional, enfrentam maiores dificuldades para compensar a desaceleração econômica. Wu observou que essas regiões não estão se beneficiando dos avanços em inteligência artificial e tecnologia, e estão sofrendo mais com as pressões inflacionárias resultantes do conflito no Oriente Médio.
Essa situação exige uma atenção cuidadosa dos economistas.
Crescimento do setor de semicondutores
Os semicondutores, essenciais para uma variedade de produtos, são frequentemente referidos como “o novo petróleo”. Um relatório da ONU projetou que o mercado global de inteligência artificial deve crescer para US$ 4,8 trilhões até 2033, um aumento significativo em relação a 2023.
O Morgan Stanley estima que os investimentos em infraestrutura de IA podem ultrapassar US$ 3 trilhões nos próximos dois anos. Os efeitos desse crescimento são mais visíveis nas capitais da fabricação de semicondutores, como Taiwan, que registrou um crescimento do PIB de 13,69% no primeiro trimestre, o maior em 39 anos.
O mercado de ações de Seul também se destacou, superando os de Londres e Canadá, tornando-se o sétimo maior do mundo. As principais empresas sul-coreanas, como Samsung Electronics e SK Hynix, reportaram lucros recordes, com a capitalização de mercado da Samsung ultrapassando US$ 1 trilhão.
Apesar da dependência de importações de combustível e matérias-primas, o investimento substancial no setor de semicondutores tem diminuído as preocupações sobre a capacidade dessas empresas de garantir o fornecimento.
Desafios futuros e implicações da desigualdade
A combinação do crescimento da inteligência artificial com a crise energética apresenta um desafio significativo para os governos, que precisam equilibrar uma economia cada vez mais fragmentada. O aumento da desigualdade de renda não apenas eleva o risco de agitação social e política, mas também ameaça a estabilidade econômica a longo prazo, pois a concentração de riqueza reduz o poder de compra da maioria da população.
Economistas alertam que a percepção de crescimento constante pode mascarar problemas estruturais que podem se agravar rapidamente.
Kristy Hsu, do Centro de Estudos da ASEAN em Taiwan, destacou que a indústria de semicondutores, embora representando uma pequena parte da força de trabalho, oferece salários significativamente mais altos, o que pode privar outros setores de recursos essenciais.
A dependência excessiva de um único setor torna as economias vulneráveis a correções de mercado, especialmente se o desenvolvimento da IA não atender às expectativas ou se a escassez de matérias-primas prejudicar a produção.
Frederic Neumann, economista do HSBC, questionou como os bancos centrais devem definir políticas monetárias em um cenário de crescimento desigual. A crescente desigualdade pode ter implicações econômicas sem precedentes, e Neumann advertiu que a recuperação em forma de K pode se perpetuar, afetando não apenas a Ásia, mas também outras economias que dependem da região. À medida que a confiança do consumidor e a indústria manufatureira diminuem, os efeitos dessa desigualdade podem se estender globalmente.
Editoria:
Redação Economia
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