Conceição Evaristo: IA ameaça “escrever vivências” na literatura

Conceição Evaristo alerta: IA desafia a essência humana na produção textual e ameaça conceito de “escrever vivências”.

28/08/2026 13:41

5 min

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A literatura corre o risco de perder um contato humano essencial — aquele do olho a olho —, segundo Conceição Evaristo, escritora e professora mineira autora de obras como “Ponciá Vicêncio” e “Olhos d’Água”. A intelectual alerta que as tecnologias avançadas podem gerar mentes mais preguiçosas na juventude.

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“Não sei o que a máquina pode fazer conosco ou o que nós podemos fazer com a máquina”, explica ela sobre os riscos da inteligência artificial no processo criativo. Para a artista, essa facilidade tecnológica altera profundamente até mesmo o exercício da memória humana.”

A resistência artística à Inteligência Artificial

Estar ciente dos desafios impostos pela tecnologia digital é fundamental para Evaristo entender como sua arte se mantém única e insubstituível por máquinas. A escritora afirma categoricamente: “a inteligência artificial não escreve o texto que eu escrevo”.

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Ela detalha em conversa na EXAME reportagem de São Paulo que as IAs jamais conseguirão replicar horas dedicadas procurando uma palavra ou rima específica.

Segundo Conceição, a força motriz das suas obras reside justamente no afeto presente nas linhas narrativas e nos versos escritos com profundidade humana. É essa essência emocional — misturando experiências comuns à população negraque deu espaço aos seus livros para mais de 500 mil brasileiros.”

O conceito literário da “escrevivência”

A trajetória artística começou formalmente quando Evaristo estreou na literatura em 1990, após se formar em Letras pela UFRJ e atuar como professora do ensino público carioca. Seu primeiro romance foi “Ponciá Vicêncio”, que aborda o cotidiano das pessoas negras no Brasil sob a ótica do realismo poético.

Escreviverência” é um termo cunhado por ela — uma junção dos verbos escrever, viver e ser visto —, para descrever sua forma de escrita única. Na prática literária, essa metodologia garante que as narrativas afrobrasileiras sejam descritas através da arte justamente porque servem como lembrete constante sobre questões históricas de desigualdade racial.”

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Novas vozes na literatura negra brasileira

Apesar de seu foco em desmistificar os riscos tecnológicos à cultura humana, Evaristo também celebra o crescimento das novas gerações artísticas negras no país. Desde suas primeiras publicações há mais de 30 anos (1990), a autora viu surgir diversos novos autores e autoras contando histórias poderosíssimas.

Entre esses nomes estão Itamar Vieira Júnior, vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 com “Torto Arado”, que Jefferson Tenório fez história ao ganhar o prêmio em 2021 por “O Avesso da Pele”. Outras vozes importantes incluem Eliana Alves Cruz, responsável pela coletânea “A Vestida” e pelo romance “Meridiana”; além de Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras após um período de mais de século.

Todas essas obras compartilham como tema central a desigualdade racial.”

Narrativas entre dor e conquista. As produções literárias atuais trazem duas narrativas distintas para discussão no Brasil contemporâneo: uma marcada pelas violências sofridas — o mundo periférico —, mas também outra que celebra as conquistas do direito ao amor ou simplesmente à vida plena.

“Há ainda essa escrita sobre injustiça… Mas existe já aquela literatura nova”, explica Evaristo, apontando na diversidade desse discurso brasileiro porque ele reflete tanto negros de classe média quanto pessoas negras em situação extrema de pobreza.

O sucesso dessas obras é comprovado nas vendas; “Torto Arado” ultrapassou a marca histórica de um milhão exemplares e “O Avesso da Pele” vendeu mais de 200 mil cópias.”

Filantropia como ferramenta para justiça social

Em seu papel cívico, Conceição participou do evento no Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) sobre filantropos brasileiros. Ela refletiu profundamente sobre essa prática que mudou desde sua juventude na região mineira.

“Lembro – me quando recebíamos alimentos sem nenhuma discussão crítica com as movimentações sociais”, conta Evaristo em retrospectiva. Hoje ela entende a função moderna e estratégica dessa área: “A carência da sociedade brasileira é construída pelo excesso de outra parcela; por isso, a filantropia precisa atacar justamente esse repartir injusto dos bens.”

Protegendo um legado cultural

Para garantir o futuro do seu trabalho artístico longe das disputas judiciais ou históricas — como ocorreu nos acervos literários de Lélia Gonzalez (cuja obra foi passada para terreiro no Rio) —, Conceição fundou há três anos sua própria Casa Escrevivência em 2024.

Ela busca manter seus escritos preservados e acessíveis.

“É parte da nossa capacidade de organização enquanto mulheres negras também”, afirma, questionando por que a palavra ‘patrimônio’ tem uma conotação masculina ao deixar herança pelo homem; sugere pensar igualmente na ideia de ‘matrêmio’.”

Próximas obras sobre afeto e corpo. Com o objetivo finalizado para os próximos meses (e vislumbrando até 80 anos), Evaristo planeja finalizar vários projetos literários importantes. Entre eles estão romances como “As Flores de Mulumbu” ou trilogias contos intituladas “Submissas Lágrimas de Mulheres”.

“Quero ainda escrever algo em relação à criança, mais provavelmente ao adolescente”, diz a autora. Outra obra promete misturar textos dela com escritos da própria mãe, Joana Evaristo — um livro chamado ‘De mãe, de mesmo’, escrito numa linguagem bem mineira —, e uma coletânea poética sobre o gozo que abordará sensualidade sem idade para falar desse tema.”

Autor(a):

Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.

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