Comunas venezuelanas transformam bairros com autogestão após sanções
Após sanções, comunidades venezuelanas lideram transformação urbana com autogestão no 23 de Enero.
Diante de adversidades históricas e sanções econômicas que afetam a Venezuela, o povo organizado tem encontrado em suas comunidades formas singulares de resistência social. Em Caracas, no histórico bairro do 23 de Enero, um dos locais onde essa resiliência ganha vida é na Comunidade Panal 21.
Comuna há quase duas décadas transforma radicalmente a realidade da região para mais de dez mil moradores espalhados por nove núcleos comunitários diferentes neste mesmo trecho urbano.
A organização popular como motor de transformação
Segundo Judith Guerra, porta – voz da comunidade Santa Rosa e moradora local, esse processo foi vital após períodos difíceis em que o medo dominava as ruas. Ela recordou os tempos prévios à Quarta República Bolivariana — quando não havia conselhos comunais nem comunidades estruturadas —, período marcado pela dificuldade na circulação nas vias públicas do bairro.
Comuna relata ainda que a resistência bolivariana brotou pelo país inteiro ao longo das décadas frente tanto aos desafios econômicos quanto às campanhas intensas de desinformação contra sua Revolução Boliviana. Foi nesse contexto que se iniciaram mobilizações institucionais para buscar quadros com identidade comum e apoio desde uma trincheira constante de luta coletiva.
Infraestruturas dignificando vidas
Os moradores conseguiram transformar significativamente o ambiente em seu entorno: foram substituídos 42 barracos por moradias mais adequadas, além da substituição completa dos telhados na maioria das casas do bairro Panal; hoje restam apenas cerca de dois a três percentuais danificados mesmo sob chuva forte.
Foi possível também trocar os sistemas hídricos locais. A comunidade conseguiu substituir seiscentos metros lineares completos de tubulação para água potável e águas residuárias.
Comuna destaca que essas melhorias estruturais vieram impulsionadas pelo processo revolucionário localizando não só as habitações dignificadoras mas fortalecendo tanto o âmbito familiar quanto aquele comunitário em termos econômicos.
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A economia criativa durante crises
Um exemplo marcante dessa capacidade adaptativa ocorreu quando a pandemia da Covid-19 limitou drasticamente a locomoção das pessoas, gerando falta generalizada de trabalho. Nesse momento difícil surgiu uma solução inédita para os moradores: um sistema conhecido como Panalito na comunidade Santa Rosa.
Comuna explica que essa rede permitiu promover ativamente a economia familiar em toda região movimentada do metrô de Caracas, onde há diversos tipos profissionais vivendo juntos – cabeleireiras, costureiros, cozinheiros. O fortalecimento econômico individual é visto pelos moradores não só como um ganho financeiro imediato mas também crucial para melhorar diretamente sua qualidade de vida coletiva e comunitária.
Visão externa sobre autogestão social
A experiência da Comuna Panal 21 atraiu o interesse internacional; até mesmo militantes socialista vindos dos Catalunha vieram conhecer os processos comunais bolivarianos no país. Maura Antoni expressou surpresa ao chegar sem grandes expectativas devido à situação do terremoto, afirmando que a maneira pela qual se constrói politicamente “do zero” através dessa organização popular é muito interessante.
Ela ressaltou também como aprenderam conceitos de assembleísmo e tomada de decisões partindo das bases populares.
Alex Quintero, outro brigadista catalão visitante, demonstrou estar impactado com as vivências encontradas na Venezuela em relação aos sistemas coletivos de produção social; ele apontou para uma experiência frutífera de autogestão comunitária onde o capitalismo europeu não possui esse modelo.
Para os visitantes internacionais, tanto no âmbito produtivo quanto participativo (como eleições dos conselhos comunais), a visita foi um aprendizado profundo que eles pretendem levar até suas próprias terras. Eles reconheceram também “um povo [venezuelano] em luta… e que tem um projeto de transformação popular baseado no socialismo”.
O significado da comuna na teoria bolivariana
Comunada Panal 21 é vista por pesquisadoras como muito mais do que uma simples instituição ou apenas o local para resolver problemas básicos — desde iluminação pública, passando pelas águas residuais. Cira Pascual Marquina explica que a Comuna não se estabelece sozinha; ela emerge das experiências locais próprias de autoorganização comunitária.
Para os moradores, essa estrutura representa “um redescoberta” e um território antiimperialista revolucionário.
Segundo Cira Páscual Marquina, embora todas as comunas tenham suas virtudes únicas em cada estado da Venezuela, elas ainda têm bastante caminho pela frente no processo socialista. Ela enfatiza que este modelo vai além dos serviços públicos: ele é considerado pelo grupo como o epicentro para construir novas relações sociais na sociedade bolivariana moderna.
Dois pilares do poder popular. Comunada argumenta sobre a natureza dessa construção ao afirmar que ela caminha com dois pés simultaneamente. O primeiro pilar é uma democracia direta e participativa sem representatividade formal — ou seja, supera modelos burgueses de forma liberal.
O segundo pé fundamental reside no controle direto sobre os meios de produção; esse conjunto duplo constrói aquilo que se chama de “democracia substantiva”.
A pesquisadora lembra ainda o momento em que essa proposta ganhou força: diante da escassez total (“o nada”), foi retomado vigorosamente um lema histórico do comandante Chávez – “comuna ou nada”. Em muitos casos como na Comuna El Panal houve até mesmo a distribuição planejada para garantir comida suficiente aos moradores.
Estrutura e alcance nacional
Ministério das Comunas informa dados oficiais, registrando 3.924 territórios comunais espalhados por todo o país venezuelano. Esses núcleos são divididos entre cinco categorias distintas de atuação social no território bolivariano:
53 comunidades indígenas
1.056 áreas rurais dedicadas à produção local
1.851 regiões suburbanas ou misturizadas em suas atividades sociais
Comunada conclui, mostrando como mesmo diante das adversidades históricas e econômicas enfrentadas pelo país vizinho ao nosso (Brasil), o povo organizado continua cultivando com cuidado os elementos essenciais para construir um futuro socialista bolivariano.