Cientistas usam pulseiras em pinguins-de-magalhães para monitorar poluição ambiental com inovação

Cientistas utilizam pulseiras em pinguins-de-magalhães para monitorar poluição
Cientistas equiparam pinguins-de-magalhães com pulseiras de amostrador passivo de silicone (SPS, na sigla em inglês), uma ferramenta não invasiva que capta substâncias químicas presentes na água, no ar e nas superfícies. Ralph Vanstreels, veterinário de animais selvagens da Universidade da Califórnia, em Davis, e coautor de um estudo publicado em março na revista Earth: Environmental Sustainability, afirma: “Há muito tempo que procuramos alternativas para medir a poluição nessas espécies.” Inspirado por pulseiras de monitoramento usadas por humanos, ele contatou Diana Aga, química analítica da Universidade de Buffalo, com uma ideia inovadora: “Colocamos outros dispositivos nos pinguins, então por que não pulseiras de silicone?”
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Durante três temporadas de reprodução, a equipe interdisciplinar coletou amostras de 55 pinguins. Mais de 90% das anilhas apresentaram substâncias polifluoroalquiladas (PFAS), um grupo de produtos químicos sintéticos utilizados em diversos produtos do cotidiano, como capas de chuva e espuma de combate a incêndio.
As PFAS são conhecidas por sua resistência à água, gordura, produtos químicos e calor, o que dificulta sua degradação. Elas se acumulam no meio ambiente e no organismo humano, e pesquisas associam sua presença a riscos à saúde, incluindo problemas reprodutivos, de desenvolvimento e câncer.
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Vanstreels destaca: “A concentração (de PFAS) não é alta, mas a encontramos consistentemente, o que indica que, mesmo em regiões remotas, esses animais estão sendo expostos de forma constante.”
Monitoramento inovador
Vanstreels explica que o monitoramento oceânico tradicional é “caro e ineficiente”, pois requer barcos e expedições longas. Os pinguins, que se alimentam em vastas áreas do oceano, oferecem uma oportunidade natural para a coleta passiva de dados. “Eles indicam quais partes do oceano são importantes, evitando amostragens aleatórias”, acrescenta.
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As pulseiras SPS, normalmente usadas como pulseiras de pulso, foram adaptadas para não causarem arrasto nas asas dos pinguins, incorporando um pequeno pedaço de fio de aço inoxidável que permite ajustes na largura da perna do animal.
O processo de colocação das anilhas levou menos de quatro minutos, com um pesquisador segurando o pinguim enquanto outro colocava a anilha na pata da ave. Vanstreels ressalta que, após a colocação, a equipe monitorou à distância para garantir o conforto dos pinguins.
Das 57 aves que receberam anilhas, apenas uma teve a anilha removida devido a suspeitas de desconforto, e apenas uma anilha desapareceu após a colocação.
Análise das amostras
Após a coleta, o laboratório de Aga em Buffalo analisou as amostras utilizando espectrometria de massa. Com mais de 7 milhões de variantes únicas de PFAS, a análise focou em uma mistura de 24 PFAS tradicionais, muitos dos quais foram proibidos ou não são mais produzidos, além de novos PFAS “substitutos”.
Aga, química principal do estudo, observa: “Há um aumento nos PFAS substitutos, o que é preocupante, pois pensávamos que seriam menos persistentes, mas não são — são tão bioacumulativos quanto os PFAS originais e, segundo especialistas, são igualmente tóxicos.”
Impacto na vida selvagem
O impacto negativo das PFAS na saúde da vida selvagem já foi documentado em centenas de estudos, com análises do Environmental Working Group (EWG) identificando PFAS em mais de 600 espécies. Contudo, os dados sobre muitas espécies são limitados, uma vez que os métodos tradicionais de amostragem, como sangue ou tecido, são invasivos.
David Megson, químico ambiental da Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, que não participou da pesquisa, afirma que o novo método oferece uma forma inovadora de coletar informações sobre a vida selvagem e seu ambiente.
Megson destaca que, embora os estudos sobre PFAS sejam abundantes na América do Norte, Europa e China, há uma escassez de dados na América do Sul, África e no Sul Global. Ele acredita que as anilhas SPS podem ser uma “técnica complementar” para entender melhor o ambiente em que os pinguins vivem, sugerindo que a principal via de exposição a PFAS provavelmente seja através dos peixes que consomem.
Perspectivas futuras
Embora os pinguins-de-magalhães não estejam em perigo de extinção, 13 das 18 espécies de pinguins reconhecidas apresentam populações em declínio ou estão ameaçadas. Vanstreels menciona que existem pinguins em áreas densamente povoadas, como na Namíbia e na África do Sul, onde a poluição pode ser mais significativa.
Ele e Aga esperam que este estudo sirva como uma “prova de conceito” para futuras pesquisas e planejam testar o método em outros animais selvagens, como cormorões, que podem mergulhar a mais de 45 metros de profundidade.
Além disso, Vanstreels pretende continuar monitorando a exposição dos pinguins à poluição, especialmente durante sua migração de inverno para o norte, em direção ao Uruguai e ao Brasil.
Autor(a):
Pedro Santana
Ex-jogador de futebol profissional, Pedro Santana trocou os campos pela redação. Hoje, ele escreve análises detalhadas e bastidores de esportes, com um olhar único de quem já viveu o outro lado. Seus textos envolvem os leitores e criam discussões apaixonadas entre fãs.



