Cepea: juros da dívida rural saltam de R$ 34 bi para R$ 99 bi e inadimplência bate recorde

Crédito a taxas de mercado saltou de 5% para 40% das contratações rurais e já concentra cerca de 77% do saldo em atraso.

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Sustentabilidade do movimento de recuo dependerá dos resultados dos próximos trimestres | Imagem gerada por inteligência artificial
Sustentabilidade do movimento de recuo dependerá dos resultados ...
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O custo anual dos juros da dívida rural brasileira subiu 191% entre 2021 e 2025, saltando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões em valores corrigidos pela inflação. O levantamento é do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da EsalqUSP.

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No mesmo período, a taxa média das novas operações para pessoas físicas foi de 6,3% para 12,2% ao ano. Com o financiamento mais caro, o produtor passou a pagar bem mais para tomar crédito, e a inadimplência acompanhou essa escalada.

Inadimplência chega ao maior nível da série

Em agosto de 2026, o percentual de operações rurais com parcelas vencidas há mais de 90 dias chegou a 9,7%, contra 0,77% em dezembro de 2022. É o maior índice desde o início da série do Banco Central, em 2011.

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Os pesquisadores Lucilio Alves e Geraldo Barros afirmam que o problema não se resume a um endividamento excessivo em relação à renda do setor. Eles apontam três fatores: o custo da dívida, a mudança na composição das fontes de financiamento e a concentração dos compromissos em atividades que perderam margem.

Uma das mudanças mais visíveis foi o crescimento do crédito a taxas de mercado, que passou de 5% das contratações rurais em 2013 para 40% em 2025. Em agosto de 2026, a inadimplência nessas linhas chegou a 17,6%, enquanto nas operações com juros controlados ficou em 3,8%.

Esses contratos respondem por cerca de 43% do saldo das pessoas físicas, mas concentram aproximadamente 77% do saldo em atraso.

Preço dos grãos cai e pecuária ganha terreno

A perda de rentabilidade pesa tanto quanto os juros. Entre 2021 e 2025, os preços reais dos grãos caíram 28%, enquanto os da pecuária subiram 12%. A renda do ramo agrícola encolheu de R$ 599 bilhões para R$ 539 bilhões, e a pecuária foi na direção oposta, de R$ 270 bilhões para R$ 331 bilhões, também em valores corrigidos.

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Os fertilizantes apertaram ainda mais o produtor de grãos. Para comprar uma tonelada de fosfato diamônico (DAP), um agricultor precisou, em 2025, de 29,1 sacas de soja, em média. Entre 2010 e 2019, bastavam 16,7 sacas.

O mapa da inadimplência reflete essas diferenças regionais. Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso apresentaram taxas de 8,8%, 7,4% e 6,3%, nessa ordem. No Maranhão e no Tocantins, os índices passaram de 15%. No Rio Grande do Sul, o atraso aparece sobretudo em operações prorrogadas e renegociadas, reflexo também das enchentes de 2024.

Carteira problemática soma R$ 205 bilhões

O problema vai além dos atrasos acima de 90 dias. Em agosto de 2026, a carteira problemática do crédito rural chegou a R$ 205 bilhões, o equivalente a 23,8% da carteira ativa de R$ 862,7 bilhões.

Esse montante inclui R$ 105 bilhões em dívidas renegociadas, R$ 31 bilhões prorrogadas, R$ 48,5 bilhões inadimplentes e R$ 21 bilhões em atraso. Na prática, boa parte dos contratos já passou por algum tipo de reorganização para não piorar.

A crise também chega a outros elos da cadeia. Levantamento do Núcleo de Estudos em Operações e Transformações do Agronegócio (NEOT), citado no estudo, registrou 517 pedidos de recuperação judicial no agronegócio no primeiro trimestre de 2026.

Desse total, 212 vieram de revendas de insumos, agroindústrias, usinas e empresas de logística e armazenagem.

Renegociação avança devagar e atinge pouco investimento

A MP (Medida Provisória) 1.376/2026, feita para facilitar a renegociação de dívidas rurais, tinha alcançado R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro. O número representa apenas 5% dos R$ 120 bilhões que o governo estimou no início, segundo os pesquisadores do Cepea.

Há ainda um dado que chama atenção: somente R$ 79 milhões foram destinados a dívidas de investimento, cerca de 1,3% do total contratado. Para os pesquisadores, isso importa porque parte do endividamento nasceu de investimentos feitos entre 2020 e 2022, quando as margens do setor estavam mais altas.

O estudo conclui que alongar todas as dívidas não deve ser a resposta. Na avaliação dos autores, é preciso separar quem enfrenta apenas um aperto de caixa temporário de quem já não gera renda suficiente para carregar o tamanho da dívida.

A Redação Economia reúne a cobertura do Clique Fatos sobre economia, negócios, mercado financeiro, agronegócio e finanças pessoais. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].

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