Brasil ganha primeira escala para medir angústia com degradação ambiental

Pesquisadores brasileiros validam escala que mede sofrimento causado por degradação ambiental, com níveis moderadamente altos no país.

4 em cada 10 brasileiros apresentam sinais de ansiedade em meio à crise ambiental

Pesquisadores brasileiros validaram uma escala inédita em português para medir a solastalgia — o sofrimento psicológico causado pela degradação do ambiente onde a pessoa vive. A ferramenta, chamada BSS – Br (Brief Solastalgia Scale – versão brasileira), foi desenvolvida por cientistas do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e publicada na revista “Environmental Psychology Research”, da “British Psychological Society”.

O estudo teve financiamento e coautoria da Natura.

Diferente da nostalgia, que é a saudade de um lugar distante, a solastalgia descreve a angústia de quem permanece em seu território, mas vê suas características se perderem. O termo pode ser aplicado a situações como secas prolongadas, incêndios florestais, perda de biodiversidade e outras alterações ambientais.

Para validar a versão brasileira, os pesquisadores analisaram dados de 1.752 adultos de todas as 27 unidades da federação e das cinco regiões do país, em uma pesquisa online não probabilística.

O que é solastalgia e como ela se manifesta

O conceito foi criado pelo filósofo ambiental australiano Glenn Albrecht para definir a angústia provocada pela deterioração do espaço de vida de uma pessoa. Na solastalgia, o indivíduo continua em seu território, mas percebe que ele está mudando de maneira indesejada.

A exposição prolongada à fumaça de incêndios, secas, degradação da paisagem e desaparecimento de elementos naturais são contextos citados como possíveis fontes desse sofrimento.

A escala apresentou média de 3,90, em uma faixa de 1 a 5, o que os autores classificam como níveis moderadamente altos de sofrimento ambiental. O estudo encontrou associação entre maiores níveis de solastalgia e mais sintomas de ansiedade e depressão, além de menor bem – estar.

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As correlações, no entanto, foram pequenas a moderadas, e os pesquisadores ressaltam que a solastalgia não é sinônimo desses transtornos, mas uma resposta emocional específica às transformações ambientais.

Validação da escala e diferenças entre grupos

A criação da BSS – Br ocorreu em duas etapas. Primeiro, a escala original passou por tradução para o português brasileiro, retrotradução, avaliação por especialistas e testes de compreensão. Depois, a versão adaptada foi aplicada à amostra nacional para verificar se os cinco itens avaliavam de maneira consistente o mesmo fenômeno.

Os resultados apontaram uma estrutura de um único fator e índice de consistência interna adequado.

A escala também apresentou invariância de medida entre diferentes grupos de idade, regiões, níveis de escolaridade, situação parental, composição do domicílio e percepção de mudanças ambientais recentes. Isso indica que os itens têm significado comparável entre esses grupos, permitindo analisar diferenças nos níveis de solastalgia sem que elas sejam atribuídas a problemas na própria mensuração.

Na análise, os níveis de solastalgia foram ligeiramente maiores no Sul e no Sudeste e menores no Nordeste, embora as diferenças regionais tenham sido sutis. Participantes mais jovens, com maior escolaridade e que relataram perceber mudanças ambientais recentes no local onde vivem apresentaram níveis mais elevados.

Sexo e renda não tiveram associação estatisticamente significativa com a pontuação da escala.

Relação com saúde mental e próximos passos

Na amostra estudada, 44,75% dos participantes atingiram ou ultrapassaram a pontuação de 10 no GAD-7, ponto de corte para indicar sintomas de ansiedade moderada ou mais intensos. Outros 47,83% atingiram o mesmo limite no PHQ-9, voltado a sintomas depressivos.

Além disso, 63,18% apresentaram pontuação igual ou inferior a 50 no WHO-5, indicando redução do bem – estar psicológico.

O trabalho integra o Projeto Apoena, iniciativa voltada à investigação das dimensões psicológicas, comportamentais e ambientais da saúde ecoafetiva. O professor Lucas Murrins Marques, primeiro autor do estudo, explica que a voz registra mudanças fisiológicas e emocionais muitas vezes imperceptíveis, e que experiências de sofrimento ambiental deixam marcas nesses padrões vocais.

Já Manuel Rios, diretor executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Natura, destaca que o projeto conecta ciência a desafios reais, transformando um fenômeno pouco mensurado em evidências para promover bem – estar.

Os autores reconhecem limitações: o estudo é transversal, não permite estabelecer causa e efeito, os dados são de autorrelato e a amostra não probabilística pode ter maior representação de pessoas com maior escolaridade e acesso digital. Para os próximos trabalhos, recomendam amostras representativas, estudos longitudinais e a combinação da escala com marcadores fisiológicos e dados geoespaciais.

Ainda assim, consideram que a validação da BSS – Br representa um avanço — é a primeira ferramenta psicometricamente validada em português para avaliar solastalgia e também a primeira desenvolvida em um país megadiverso do Sul Global.