Reincidência do Debate Sobre Violência de Gênero no Brasil
O caso mais recente reacende o debate sobre a cultura de objetificação do corpo feminino e a dificuldade do país em transformar a comoção em mudanças estruturais efetivas. A análise das causas desse ciclo vicioso, em que o choque não se traduz em políticas públicas robustas, foi realizada por meio de uma entrevista com Isadora Vianna Sento-Sé, pesquisadora de pós-doutorado no Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Nuderg/Uerj).
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Casos de violência extrema contra mulheres geram grande mobilização social, resultando em clamor público por punição e discussões sobre o endurecimento das leis. No entanto, Sento-Sé argumenta que o foco principal deveria estar na prevenção. “Precisamos priorizar medidas preventivas que impeçam a ocorrência desses crimes, em vez de simplesmente aumentar as penas”, afirma a pesquisadora.
Ela ressalta que não há evidências científicas que comprovem que o aumento das penas coíbe a criminalidade.
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A Importância da Prevenção e a Legislação Atual
Apesar da existência de uma legislação avançada, como a Lei Maria da Penha, que visa proteger as mulheres e punir os agressores, os números de feminicídios continuam alarmantes em diversos estados brasileiros. Essa disparidade se deve, em grande parte, à lacuna entre a lei e sua implementação efetiva, evidenciada pelo constante desmantelamento de estruturas de apoio a cada mudança de governo.
Sento-Sé destaca a importância da medida protetiva, uma ferramenta crucial para afastar o agressor e interromper o ciclo de violência, embora ela muitas vezes chegue tarde demais para evitar o desenrolar da situação. A pesquisadora enfatiza que a prevenção primária, que visa modificar valores e comportamentos, deve ser a principal prioridade.
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Desafios Contemporâneos e a Influência da Internet
Um dos grandes desafios contemporâneos é a exposição digital sem precedentes, que influencia a educação dos jovens, especialmente através da internet. Sento-Sé questiona o tipo de conteúdo que os adolescentes e jovens estão consumindo, mencionando a pornografia violenta, canais “red pill” e fóruns misóginos. “É fundamental pensar em como alcançar essa população com um discurso de equidade de gênero”, argumenta.
Diante desse cenário, a pergunta que se coloca é: o que está faltando para o Brasil avançar efetivamente no enfrentamento à violência contra as mulheres? Sento-Sé aponta para a melhora de políticas públicas qualificadas, investimento e um pacto social, ressaltando a necessidade de campanhas de prevenção claras e direcionadas, além de políticas públicas voltadas para homens.
Recomendações e Perspectivas Futuras
A pesquisadora sugere a inclusão obrigatória do debate de gênero no currículo escolar, uma política de estado que garantiria a discussão de ideias compatíveis com a equidade de gênero no ambiente escolar. Além disso, defende a regulamentação da internet, buscando mecanismos para proteger crianças e adolescentes do conteúdo prejudicial que consomem online.
A pesquisa coordenada por Sento-Sé no Nuderg/Uerj analisa mais de 20 anos de campanhas de prevenção à violência de gênero, apontando para a necessidade de campanhas mais claras e direcionadas.
