África do Sul registra 46 mortes em cinco tiroteios em massa em menos de uma semana
África do Sul enfrenta crise de segurança após série de ataques que deixou 57 vítimas fatais só em setembro.
Pelo menos 46 pessoas morreram em cinco tiroteios em massa ocorridos em menos de uma semana na África do Sul, reacendendo o debate sobre a violência armada no país. Os ataques, que chocaram até mesmo uma nação com uma das maiores taxas de homicídios do mundo, expõem a força do crime organizado e a facilidade de acesso a armas ilegais.
Especialistas apontam que o país está “inundado de armas”, nas palavras de Julian Rademeyer, consultor da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI – TOC). A situação ficou clara no último sábado, quando oito homens armados com fuzis AK-47 e pistolas invadiram um bar em Wedela, a oeste de Joanesburgo, e mataram 18 pessoas.
Horas depois, outro ataque ocorreu perto da Cidade do Cabo.
Queda nos homicídios, mas aumento de ataques em massa
Os dados oficiais da polícia mostram uma redução na taxa de homicídios do país. Nos 12 meses encerrados em 31 de março de 2025, a taxa caiu para 41 por 100 mil habitantes, contra 44,7 no período anterior. O ministro interino da Polícia, Firoz Cachalia, atribui a melhora a operações policiais direcionadas e à maior cooperação entre agências, mas ressalta que são necessários mais estudos para entender as causas da queda.
O que preocupa, no entanto, é a frequência dos assassinatos em massa. A GI – TOC registrou 31 ataques desse tipo entre 1º de janeiro e 28 de setembro deste ano, com pelo menos 210 mortos e 79 feridos. A organização considera assassinato em massa quando ao menos três pessoas são mortas intencionalmente em um único ataque.
Quatro dos cinco tiroteios recentes se enquadram nessa definição.
Segundo Rademeyer, a organização não tem dados comparativos confiáveis com o ano passado, já que o monitoramento separado desses casos só começou em 2025. Ainda assim, os números são alarmantes: em janeiro houve um caso, em fevereiro outro, e em junho a contagem já chegava a oito.
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Somente os ataques de setembro deixaram 57 vítimas fatais.
As causas e o rastro das armas ilegais
Não há uma explicação única para os ataques. Rademeyer afirma que os crimes ocorrem em diferentes mercados ilícitos, como mineração ilegal, extorsão, atividades de gangues e disputas por rotas de transporte. Em fevereiro, o presidente Cyril Ramaphosa classificou o crime organizado como “a ameaça mais imediata à nossa democracia” e anunciou o envio de militares para apoiar a polícia.
Os investigadores não acreditam que os cinco tiroteios mais recentes estejam ligados entre si. As motivações variam de disputas territoriais a retaliações e conflitos comerciais. O caso mais letal, o do bar em Joanesburgo, pode estar relacionado a uma briga pelo controle da mineração ilegal na região de Wedela, onde grupos criminosos usam homens armados para proteger seus territórios.
A origem das armas também é um problema. A GI – TOC documentou o fluxo de armas vindas da Namíbia para quadrilhas sul – africanas. Stanley Maphosa, diretor executivo da Gun Free South Africa, explica que existe uma cadeia de suprimentos que abastece esses crimes. “Um fuzil AK-47 não chega a um bar sozinho”, disse ele.
Dados citados por Rademeyer mostram que cerca de 63.500 armas de civis registradas foram declaradas perdidas ou roubadas entre 2013 e 2023. Além disso, desde abril de 2022, 2.346 armas da polícia foram roubadas e outras 177 perdidas, junto com 194.920 cartuchos de munição.
Um caso emblemático é o do ex – coronel Christiaan Prinsloo, condenado em 2016 por roubar mais de 2.000 armas de depósitos policiais e revendê – las para quadrilhas. Perícias ligaram 888 dessas armas a 1.066 assassinatos na província de Cabo Ocidental.
Desafios para conter a violência
A Operação Vala Umgodi, do governo, já prendeu milhares de pessoas e apreendeu centenas de armas no combate à mineração ilegal. Mas Rademeyer alerta que prender apenas os participantes de baixo escalão tem impacto limitado. “A polícia deveria mirar compradores e refinadores de ouro ilegal, financiadores e fornecedores de armas”, defende.
Outro gargalo é a perícia balística. O chefe do setor de balística do Laboratório de Ciências Forenses da polícia informou a uma comissão de inquérito, no ano passado, que a unidade acumulava 41.846 casos pendentes e mais de 29.000 armas ligadas a crimes armazenadas.
Rastrear a origem das armas e verificar se foram usadas em outros crimes é um processo demorado, o que dificulta a prevenção de novos ataques.