50 anos do golpe na Argentina: analistas veem ecos da ditadura no governo Milei
Os 50 anos da ditadura argentina: reflexos no governo Milei
A ditadura argentina, que se iniciou em 1976 com um golpe de Estado que completa 50 anos nesta terça-feira (24), continua a reverberar no cenário político atual. Analistas e especialistas apontam paralelos preocupantes entre o governo de extrema direita de Javier Milei e a lógica repressiva daquele período, levantando questões sobre a memória histórica e a luta contra o autoritarismo.
A tônica central da análise reside na utilização de estratégias semelhantes para atacar opositores políticos, ecoando os métodos empregados durante a era militar.
A releitura histórica e a justificativa ditatorial
A socióloga Valentina Salvi, pesquisadora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), destaca que a administração Milei “adotou o discurso de que, durante a década de 1970 na Argentina, havia uma guerra interna, uma guerra entre duas forças, as insurgentes e as do Estado, e que houve um avanço do marxismo subversivo”.
Salvi explica que, desde o final da ditadura em dezembro de 1983, a leitura democrática construída sobre o período foi a de que, ao contrário do que afirmavam os militares, não houve guerra, mas forças insurgentes reprimidas pelo terrorismo de Estado que cometeu violações dos direitos humanos.
Essa releitura histórica, segundo a socióloga, faz parte de “uma batalha cultural no âmbito das memórias da ditadura”, utilizada para demonizar oponentes políticos.
A semelhança com o passado e o legado econômico
A tática de equalizar montoneros, terroristas e kirchneristas, segundo Salvi, visa deslegitimar movimentos sociais e políticos que se identificam com bandeiras levantadas nos anos 1970, como noções de justiça social e igualdade de direitos. O governo Milei busca, assim, desconstruir a memória da luta contra a ditadura, buscando desqualificar a oposição atual.
O historiador Miguel Stédile ressalta que a agenda econômica de Milei, de ênfase neoliberal, ecoa o projeto do ministro da Economia da ditadura, José Alfredo Martínez de Hoz, que privilegiava a reprimarização produtiva, abria excessivamente o país comercialmente, dependia do FMI e do arrocho salarial e reprimia as organizações sindicais e populares.
As raízes da ditadura e o fim da legitimidade
As origens do golpe de 76 remontam ao governo anterior — breve interlúdio de três anos entre duas ditaduras militares —, de Juan Domingo Perón. Após sua morte, em 1974, o governo foi assumido por sua esposa e vice, Isabel Perón, que em 1975 ordenou que as Forças Armadas combatessem guerrilheiros de esquerda nas florestas do norte do país.
O fortalecimento militar, com maior autonomia para seus comandantes, acabou criando as condições para o golpe de 24 de março, apoiado pelos Estados Unidos e uma elite econômica e eclesiástica, alegando “a ameaça comunista e terrorista”. A longa noite da ditadura, marcada por violência, tortura e desaparecimentos, culminou na invasão das Malvinas em 1982, que acelerou o fim do regime.
A importância da memória e a luta contra o autoritarismo
A experiência argentina, marcada por um trauma profundo e pela busca por justiça, serve como um alerta sobre os perigos da manipulação da história e da utilização de discursos autoritários. A persistência de valores como o respeito aos direitos humanos e a democracia jurídica, como demonstrado na expansão dos direitos das mulheres e das minorias na Argentina, evidenciam a importância da memória como ferramenta de resistência e de construção de um futuro mais justo e igualitário.
A análise do cenário político argentino, com a ascensão de Javier Milei, reforça a necessidade de vigilância constante e de defesa dos princípios democráticos contra qualquer forma de retrocesso.
Atualização em 30/10/2026: o texto foi corrigido.
Editoria:
Redação Internacional
A Redação Internacional reúne a cobertura do Clique Fatos sobre os principais acontecimentos fora do Brasil. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para contato@cliquefatos.com.br.